A Grande Virtude de Gopa

Naquela ocasião, as mulheres do palácio vieram prestar homenagem ao Mestre. Somente Gopa estava ausente.

“Solicitei à ela que viesse conosco”, disse Mahaprajapati. “’Não irei com vocês’, ela respondeu. ‘Posso estar carente em virtude; posso não merecer ver o meu marido. Se nada fiz de errado, ele virá a mim de sua própria vontade, e eu então mostrarei o respeito que lhe é devido’.”

O Mestre deixou o seu assento e foi aos aposentos de Gopa. Ela havia se despojado de suas indumentárias caras e seus véus leves; havia deixado de lado seus braceletes e seus colares; estava trajada num robe avermelhado, feito de algum tecido grosseiro. Ao vê-la vestida assim, ele sorriu de felicidade. Ela caiu aos seus pés e o reverenciou.

“Veja”, disse ela, “quiz vestir-me como você está vestido; procurei saber sobre sua vida no sentido de viver como você vive. Você come não mais que uma vez ao dia, e eu como não mais que uma vez ao dia. Você desistiu de dormir em uma cama; olhe ao redor: nenhuma cama você verá, e aqui está o tablado sobre o qual eu durmo. E de agora em diante, acabarei com os perfumes doces, e não mais colocarei flores no meu cabelo.”

“Estava ciente da sua grande virtude, Gopa”, respondeu o Mestre. “Você não falhou, e eu te louvo por isso. Quantas mulheres há neste mundo que teriam a coragem de fazer o que você fez?”

E sentando-se, ele disse essas palavras:

“As mulheres não são confiáveis. Para cada uma que é sábia e boa, mais que mil podem ser encontradas que são tolas e perversas. A mulher é mais misteriosa que o caminho de um peixe através da água; é tão cruel quanto um ladrão, e como o ladrão, ela é enganosa; ela raramente dirá a verdade, pois para ela uma mentira é como uma verdade e a verdade é como uma mentira. Frequentemente digo aos meus discípulos para evitar as mulheres. Desagrada-me até ter de falar-lhes. No entanto você, Gopa, não é falsa; acredito em sua virtude. Virtude é uma flor não facilmente encontrada, uma mulher deve ter olhos límpidos para poder vê-la; ela deve ter as mãos puras a fim de colhê-la. Mara esconde suas flechas aguçadas sob as flores. Oh, quantas mulheres adoram flores traiçoeiras, flores que infligem feridas que nunca cicatrizam! Mulheres infelizes! O corpo é nada mais que espuma, e elas não o conhecem. Elas apegam-se a esse mundo, e então vem o dia quando o Rei da Morte as reinvindica para si. O corpo é menos substancial que uma miragem: quem o sabe quebrará as setas floridas de Mara, quem o sabe nunca encontrará o Rei da Morte.  A morte leva embora a mulher que colhe flores descuidadamente, exatamente como a correnteza, engrossada pela tempestade, leva embora a aldeia sonolenta. Colha flores, oh mulher, deleite em suas cores, beba o seu perfume; a morte está a espreita por você, e antes que esteja satisfeita, você será dela. Considere a abelha: ela vai de flor em flor e, sem ferí-las, simplesmente pega o néctar do qual o mel é feito.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: