O Diário de um Tolo

A Volta Final

ORROZ, você disse: “As pessoas guardarão na lembrança a imagem de um presidente do STI – Supremo Tribunal da Iniquidade conservador, imperial, tirânico, que não hesitava em violar as normas quando se tratava de impor à força a sua vontade”, a respeito de seu antecessor. O que diz agora diante do espelho das verdades imutáveis, e diante deste Tribunal da Equanimidade?

Oh, ORROZ ! Quando o dedo em riste aponta para o acusado, o polegar aponta para os céus (de onde se aguarda a justiça), e os outros três apontam para si.

Click na imagem para download.

Click na imagem para download.

 

Conteúdo

02/05/2014 – O Cenário 7

Ato I – Antes do Rolê 9

27/01/2014 – A Charada 11
27/01/2014 – A Lenda de ORROZ 11
28/01/2014 – Visão Distorcida 12
29/01/2014 – O Espelho das Verdades Imutáveis 12
29/01/2014 – O Direito de Defesa 13
30/01/2014 – Pelos Campos do País 13
29/01/2014 – O Domínio dos Fatos 14
29/01/2014 – O Gozo das Aparências 15
31/01/2014 – O Rolê de ORROZ 16
02/02/2014 – A Armadilha da Presunção 17
04/02/2014 – O Tribunal do Horror 18

Ato II – Depois do Rolê 19

05/02/2014 – A Vacuidade dos Fenômenos 21
09/02/2014 – O Fator Tempo 21
10/02/2014 – A Senhora dos Olhos Vendados 22
13/02/2014 – Equanimidade 23
13/02/2014 – A Razão Última do Debate 24
15/02/2014 – OTNOT 25
18/02/2014 – Sobre a Boa Lei 26
19/02/2014 – O Cabo das Tormentas 27
19/02/2014 – A Cidadela 28

Ato III – O Outro Lado 29

20/02/2014 – O Outro Lado 31
21/02/2014 – O Dharma da Equanimidade 32
25/02/2014 – A Farsa Desnudada 33
25/02/2014 – De Volta ao Caminho Médio 34
27/02/2014 – Em Tempos de Carnaval 35
28/02/2014 – A Imagem do Alazão 35
10/03/2014 – A Trilha à Esquerda 38
10/03/2014 – O Corpo e a Sombra 40
25/03/2014 – As Fases da Sombra 41

Ato IV – De Volta ao Ostracismo 43

25/04/2014 – A Hipótese da Dualidade 45
06/05/2014 – Os Túneis para o Céu 46
13/05/2014 – O Efeito Túnel 47
14/05/2014 – A Trilha à Direita 48
14/05/2014 – O Sétimo Túnel 49
15/05/2014 – O Duplo Mágico 51
21/05/2014 – O Agente Fotosensitizante 52
23/05/2014 – O Turfe em Copa 53
11/06/2014 – A Volta Final 54

A Trilha à Esquerda

ORROZ

Quando ORROZ tomou a trilha à sua esquerda, aquela mais escarpada, sentiu uma estranha sensação de leveza. Mas, não era em seu pesar. Era como se milhares, milhões de pequenos seres passassem a impeli-lo e a suportá-lo em seu pisar. De fato, sentia uma espécie de formigamento em todo seu corpo, uma imagem daqueles pequenos seres que num esforço coletivo carregam pesadas cargas.

Mas ainda relutava em aceitar algumas coisas que lhe foram imputadas naquele Tribunal da Equanimidade. Pensava: ‘Eu não dei rolezinho[1] nenhum. Não posso concordar com isso’.

Quando assim pensou pela terceira vez, vozes ecoaram estrondosamente ao seu redor: ‘Deu sim, deu sim, deu sim…’. E de um eco inicialmente ensurdecedor, as vozes foram se fundindo até o uníssono, quando ouviu:

“ORROZ, somos muitos, mas não algo que se possa contar; somos muitos, mas não algo que se possa distinguir uns dos outros; porque somos um”.

Então, ORROZ se lembrou dessa passagem registrada em seu diário no dia em que perguntou: ‘quem são vocês afinal?’ Condescendeu em ouvir a explicação que se seguiu:

“ORROZ, uma pessoa da sua importância reflete a vida de muitos milhares, milhões de outras pessoas. Semelhantes ou não, essas pessoas têm as suas vidas quase sem significância refletidas em você, como se fossem minúsculas pastilhas de espelho coladas em você, a conferir-lhe a textura de um ser humano de grau superior.

Eles são essas formiguinhas que estão a levitá-lo em sua árdua caminhada, mas que nada podiam fazer quando na montaria de ‘El Diablo’ você as pisoteava. Compreende agora o que significa derivar à esquerda, ORROZ? Compreende agora que aqueles muitos dos ‘rolezinhos’ que assombraram aquele país eram você? E que você é a esperança de suas vidas sem significância perante a instituição à qual você pertence?

ORROZ, para sair definitivamente daquele atoleiro, daquela areia movediça que representa o apego, dê o primeiro passo. Quer saber qual o primeiro passo a ser dado? Abandone-se, esqueça as próprias ofensas, aceite-as com a humildade daqueles pequenos, e coloque as ofensas que lhes afligem há séculos como algo de interesse maior em sua vida. Esqueça o ‘eu’ e tudo que pertença ao ‘eu’, tornando-se mais leve; e assim, aquelas formiguinhas o carregarão para um lugar seguro”.

Ao que ORROZ respondeu:

“Certo!”

 


 

[1] O Rolê de ORROZ.

 

A Imagem do Alazão

ORROZ

Então, diante do Tribunal da Equanimidade, depois de muito meditar, ORROZ decidiu se pronunciar, dizendo:

“Quero voltar. Deixei uma família humilde para trás e quero cuidar deles. Lá, todos sabem que eu não sou uma má pessoa, e conhecem as minhas verdadeiras intenções. Quero voltar!”, exclamou.

Ao que uma voz terna lhe respondeu:

“Oh, ORROZ, não se aflija! Aqui também o sabemos. Não apenas que você não é uma má pessoa, mas também as suas verdadeiras intenções. Conhecemos também suas melhores qualidades, suas ações meritórias, a pureza de muitos dos seus pensamentos, e tudo com muita profundidade. Não se aflija!

ORROZ, pessoas menores, destituídas de méritos, sequer adentram o recinto deste Tribunal da Equanimidade. É por essa razão que você se sente tão só”.

ORROZ prosseguiu:

“No entanto, tenho preocupações. Conheço o caminho, mas receio que ‘El Diablo’ não resista, está esgotado, não tem forças para me levar de volta”.

Então, ouviu vozes em uníssono:

“Abandone-o, ORROZ!”

“Como poderia? Esse cavalo tem sido meu companheiro nessa jornada. Tenho cuidado dele como um filho, como poderia sacrificá-lo agora? Parece não entenderem o que ‘El Diablo’ representa na minha vida”.

Ouviu, então:

“Oh ORROZ! Como poderíamos não saber? Ele, ‘El Diablo’, seu fiel alazão, representa a soberba. E você não poderia sacrificá-lo, ORROZ. Por quê? Esse cavalo é um ser não-nascido, um imortal na linguagem mundana, e é montaria de muitos outros. Procure lembrar como você o adquiriu”.

ORROZ confessou:

“Não o criei, nem o adquiri. Ele apareceu diante de mim, certo dia em minha vida, quando tudo parecia estar dando certo para mim. Mais precisamente, foi no dia em que recebi aquela nomeação. Evidente, vocês sabem qual”.

“Certo, ORROZ! Para além das outras muitas qualidades, você possui boa memória, também. Aquele cavalo não nasceu ou foi criado para você. Ele é uma imagem que surge na mente dos tolos, e que passa a controlar os seus movimentos, como uma montaria. Por essa razão, dissemos para abandoná-lo, não para sacrificá-lo. ‘El Diablo’ é uma imagem, é como uma bolha na água, uma miragem no deserto. Como poderia sacrificá-lo?”

“Então devo seguir sozinho?”, indagou ORROZ.

“Sim, sozinho! Devemos alertá-lo de que os oito ventos soprarão forte, mas não olhe para trás. O que você estará abandonando é apenas uma imagem, lembre-se, sem uma substância real. Para além do Cabo das Tormentas, e de frente para aquele país distante que fica a oeste daqui, e que se chama ‘Ingratidão’, a força dos ventos se intensificará, e será muito difícil suportá-la. Mas, siga! Você receberá toda a ajuda necessária, desde que não desista”.

Então, ORROZ se voltou para oeste e iniciou a sua jornada de volta. Sentia-se caminhar sobre areia movediça, pois a intensidade do relinchar de ‘El Diablo’ não se atenuava em sua mente. Era tão belo, tão fogoso, pensava. Mas, não olhou para trás, como lhe fora recomendado.

Ouviu uma voz acolhedora e envolvente, que ecoava em todas as direções:

“ORROZ, essa areia movediça é o apego, abandone-o por completo. Siga pela trilha à esquerda, aquela mais escarpada. Embora lhe pareça mais inóspita, por ali você se sentirá mais leve”.

“Certo!”, disse ORROZ.

 

De Volta ao Caminho Médio

ORROZ

Estarrecido, ORROZ ensaiou reação:

“Então, de acordo com este Tribunal da Equanimidade, o que praticamos lá atrás é iniquidade? Não há um caminho?”

Ao que vozes em uníssono responderam:

“Sim, ORROZ! O que praticam é iniquidade. Quanto ao caminho, recomenda-se a compaixão. O que isto significa no seu caso? Oh, filho da cobiça, não sabe o que significa compaixão? Espelhe-se no seu mentor, o Dharma da Equanimidade, aquele que o criou, e procure sem demora o Caminho Médio.”

 

 

 

 

 

O Dharma da Equanimidade

ORROZ

Agora, mais calmo, ORROZ perguntou:

“Vocês agem como pais extremamente rigorosos para comigo. Por que eu? Há tantos outros sobre os quais nem cabe falar, pois aqui estou só. Por que eu?”

Ao que uma voz profunda ecoou no Tribunal da Equanimidade:

“Porque foi esse Dharma da Equanimidade[1] que o criou, ORROZ, e que o alçou ao poder. Uma vez lá, você só fez caluniar esse Dharma, deixando-se tomar pela soberba.

Até então, você desconhecia o verdadeiro nome daquele país, marcado por tanta injustiça e desigualdade. Mas agora o sabe: ‘Ingratidão’.

Você se juntou aos ímpios, aos grandes caluniadores do Dharma da Equanimidade, deu-lhes uma voz soberana em meio aos poderes estabelecidos – uma voz que de há muito lhes faltava – e fez coro para suas falácias insinceras, iludindo um sem número de pessoas de boa fé que clamavam pela correção dos descaminhos daquela nação. E assim, levou um país inteiro a espiar o mundo pelo buraco da fechadura, significando levá-lo a julgar o todo a partir de uma visão parcial dos fatos apontados nos autos. Por que ‘buraco da fechadura’? Olhe para si mesmo, ORROZ, você é o buraco da fechadura da porta da sala onde se guardavam os autos protegidos por segredo de justiça, e que você mesmo assim determinou. Agora, está só. Não precisam mais de você”.

 


 

[1] Por ser eterno, não-nascido, o Dharma da Equanimidade “surge” no Sutra de Lótus e resplandece no Sutra Diamante e no Sutra do Nirvana, em toda a sua extensão. A quem interessar, ler ‘O Daimoku do Sutra de Lótus’.

 

 

 

 

 

Sobre a Boa Lei

ORROZORROZ! Percebemos seu incômodo quando utilizamos a palavra tergiversação. Oh, ORROZ! Aqui, neste Tribunal da Equanimidade, falamos da Boa Lei. O que é tergiversar a Boa Lei?

É arrancar o seu fim (que é a justiça) e colocá-lo como meio (um instrumento de poder); é pegar o seu princípio (de moralidade e correção) e colocá-lo como fim (sentença e punição); e pegar o meio (a arguição) e colocá-lo como princípio ou fundamentação da sua aplicação.

Isto é tergiversar a Boa Lei, pois, sem que se altere as suas letras, condena-se com base em argumentos, e nada mais; ou absolve-se com base em procedimentos, e tudo mais.

Nesse caso, a justiça, cujo papel deveria ser o de amparar a sociedade, apresenta-se como um poder opressor, com relação ao qual se deve nutrir um sentimento de medo. Por que o medo? Porque pequenas leis injustas todos transgridem, e o fazem enquanto a justiça não lhes acolhe.

 

 

A Razão Última do Debate

ORROZORROZ, o mundo Saha[1] é desigual. Tudo se baseia nas discriminações. Por essa razão, há divergências a respeito de todas as coisas. O mundo Saha é tão desigual que podemos afirmar que cada indivíduo da sua espécie o vê de uma forma única. Por isso, nos critérios de avaliação da boa conduta de um humano, as relações cordiais têm peso maior. Compreende? Se isto se aplica indistintamente no universo das relações de um ser, que dirá nas restritas relações com seus pares e entes mais próximos.

Ensejar contendas, ORROZ, é como nutrir as raízes da insalubridade. E quando se o faz evocando o poder das hierarquias, torna-se o mais execrável exercício da iniquidade. Os humanos dizem que a corda arrebenta sempre do lado mais fraco. Mas aqui, neste Tribunal da Equanimidade, a corda arrebenta sempre no meio. O senhor compreende o que significa “arrebentar no meio”? Significa perder o Caminho Médio, onde a Justiça deveria apoiar-se. Lembra-se da ‘balança’? Significa perder a razão última do debate, que é a mediação[2].

De forma atabalhoada, entre leis e tergiversações das mesmas, o senhor assim faz com seus pares, desautoriza-os e revoga seus atos como se isso não estivesse a depor contra si mesmo e contra a instituição à qual pertence, aquele Pequeno Tribunal sobre o qual já falamos anteriormente. Foi além, ao desautorizar profissionais de reconhecida perícia médica. Mais além, pretendeu caçar raposas (seria cassar?) no quintal alheio. Desculpe-nos pela dificuldade que temos com a sua linguagem dúbia. Aqui, a escrita foi abolida há muitos séculos em prol da pureza das intenções. Compreende?

 


 

[1] Chamado Saha, este é o mundo da tolerância. Então, o que devemos cultivar aqui? Ora, a tolerância e a paciência. Assim, desarme seu espírito, despojando-o da armadura da intolerância, e vista-se com os robes do Tathagata, agindo com gentileza e paciência para com todos os seres. Se conseguir agir assim por um período de apenas 24 horas, estará apto a repeti-lo indefinidamente, e também será capaz de cultivar as virtudes da benevolência e da compaixão – em Monólogo no Exílio.

[2] A mediação é um procedimento para resolução de controvérsias, se enquadra como um dos métodos alternativos à clássica litigância no judiciário, uma ADR [1] (Alternative⁄Amicable Dispute Resolution). Consiste num terceiro imparcial (mediador) assistindo e conduzindo duas ou mais partes negociantes a identificarem os pontos de conflito e, posteriormente, desenvolverem de forma mútua propostas que ponham fim ao conflito. O mediador participa das reuniões com as partes de modo a coordenar o que for discutido, facilitando a comunicação e, em casos de impasse, intervindo de modo a auxiliar a melhor compreensão e reflexão dos assuntos e propostas, mas nunca impondo às partes uma solução ou qualquer tipo de sentença – Fonte: Wikipedia, a enciclopédia livre.

 

 

Equanimidade

ORROZPor que boas ações se compilam como momentos de vacuidade? ORROZ, quando se pratica ações puras, estas são destituídas do ‘eu’. Na verdade, não importa quem as pratica, quem as recebe, ou o quê se concede ou se oferece em doação. Isto é praticar a equanimidade. Isto é colocar-se acima dos mesquinhos interesses mundanos. Quando estiver a praticar aquelas boas ações sem cessação, sem sequer perceber que as perpetra em cada ato, então o tolo e seus arroubos, juntamente com seu diário, desaparecerão, e darão lugar ao amor-benevolente, à compaixão, à intenção-amável e à equanimidade.

 

 

A Vacuidade dos Fenômenos

ORROZORROZ andava tristonho, introspectivo, já não era o mesmo. Onde quer que estivesse ou fosse, sentia-se no Tribunal da Equanimidade. Ouvia vozes, falava sozinho, mas agora menos que outrora. Ali, onde se sentia estar, não havia direções, nem mesmo as de cima ou abaixo. Não havia lados de dentro ou fora. Era um sumidouro de formas, um grande vazio. Um silêncio ensurdecedor dizia-lhe coisas sobre a vacuidade dos fenômenos, a qual jamais compreendera ou encontrara nas letras. Sentia-se só.

A solidão era tanta que, certo dia, ORROZ cochilou em pleno tribunal. Acordou em sobressalto de um sonho e bradou:

– Quem são vocês, afinal?

Veio a resposta:

– Somos muitos, mas não algo que se possa contar. Somos muitos, mas não algo que se possa distinguir uns dos outros.

– Como assim? Indagou ORROZ.

– É porque somos um, ORROZ. E o lugar onde você esteve, bem como onde se encontra agora, é o Vazio.

A Armadilha da Presunção

ORROZ

Percebemos uma ponta de ironia em seu sorriso quando nos referimos ao “Pequeno Tribunal” ao qual você pertence.

Senhor ORROZ, este Tribunal da Equanimidade é extragaláctico, é supramundano. Enquanto extragaláctico, é superior na dimensão que sua espécie conhece; enquanto supramundano, evoca uma dimensão que a sua espécie não conhece. Caso contrário, como poderia ser equânime?

Sua presunção[1] agrava as suas ações!


[1] Antônimo de humildade e modéstia, presunção aqui tem o sentido de ‘sensação ou opinião de grandeza e reconhecimento que um indivíduo nutre em relação a si próprio’ – léxico: dicionário de português em http://www.lexico.pt.

« Older entries

%d blogueiros gostam disto: