Uma Balsa para Atravessar o Mar do Sofrimento

Quanto a esse princípio, o Buda muitas vezes disse aos monges: “Vocês devem saber que o dharma que eu prego é como uma balsa”. A balsa é utilizada para atravessar o mar do sofrimento – do nascimento e da morte. Antes de ter escapado do (ciclo do) nascimento e da morte, você usa a balsa na cultivação. Uma vez que você tenha acabado com o (ciclo do) nascimento e da morte, você deve deixar a balsa de lado. Se você não deixa a balsa de lado, isso é apego. Se você não põe o dharma de lado, você tem um apego.

O apego aos dharmas infecta uma pessoa como uma doença. Usando o dharma que ensina a vacuidade dos dharmas como remédio, a doença pode ser curada. Uma vez curada, se a pessoa falha em compreender que ela está bem e continua a tomar o remédio, então ela desenvolve um apego sem sentido ao remédio, e que corresponde a uma outra doença. Aqueles que perceberam a vacuidade das pessoas e a vacuidade dos dharmas devem abandonar também o apego à não-existência dos dharmas.

As marcas dos dharmas devem ser deixadas de lado. Quando se acaba com o nascimento e a morte, deve-se deixar os dharmas de lado. Pessoas e dharmas são vazios. Deve-se deixar de lado até mesmo o dharma verdadeiro e apropriado, quanto mais então a não-existência dos dharmas. Deve-se abandonar todos os apegos remanescentes.

Sutra Diamante – Capítulo 6 – A Crença Apropriada é Rara.

Original

O Vazio de Todos os Fenômenos

Essas pessoas perceberam o vazio das pessoas e assim não possuem a marca do eu, dos outros, dos seres viventes ou da vida. Não possuir eu significa ver o eu como vazio. Não possuir marca dos outros significa ver as pessoas como vazio. Sendo ambos vazios, o eu e as pessoas, os seres viventes também são vazios. Naturalmente, quando os seres viventes tornam-se vazios, então não há marca de uma vida, que se refere à busca contínua pela imortalidade bem como à busca contínua de todas as coisas que se ama e não se pode ver através delas.

Ao perceber a vacuidade das pessoas deve-se também perceber a vacuidade dos dharmas (fenômenos), bem como abandonar a marca da não-existência dos dharmas (fenômenos). Quando não há qualquer dharma correto ou incorreto, chega-se à substância básica dos dharmas.

Se os corações daqueles seres viventes apegam-se às marcas, se eles se atêm à marca das pessoas, eles ainda agarram-se às quatro marcas e não obtêm a libertação. Eles não demoliram todas as coisas genuinamente. Se eles apegam-se à marca dos dharmas (fenômenos), eles ainda estão atados às quatro marcas; se apegam-se à marca da não-existência dos dharmas, eles também estão atados às quatro marcas, porque eles não vêem através delas e lhes destrói. Eles ainda não perceberam a vacuidade das pessoas, dos dharmas e a vacuidade de si próprios.

Sutra Diamante – Capítulo 6 – A Crença Apropriada é Rara.

Original

Nagarjuna e Sunyata

Nagarjuna

Estátua de Ouro de Nagarjuna no Monastério de Samye Ling – Imagem Via Wikipedia

A primeira contribuição de Nagarjuna para a filosofia Budista está no uso de um conceito de sunyata, ou “vacuidade”, que reúne outras doutrinas Budistas fundamentais, particularmente anātman (não-eu) e pratītyasamutpāda (surgimento dependente), para refutar a metafísica da Sarvastivāda e da Sautrāntika (escolas extintas não-Mahayana). Para Nagarjuna, bem como para o Buda nos textos mais antigos, não são meramente os seres sencientes que são “destituídos do eu” ou não-substanciais; todos os fenômenos são sem qualquer svabhāva, literalmente “natureza própria”, e assim, sem qualquer essência subjacente. Todos os fenômenos são vazios de um ser independentemente existente; e assim, as teorias heterodoxas do svabhāva circulantes naquela época foram refutadas com base nas doutrinas do Budismo primordial. Isto é assim porque todas as coisas surgem sempre de forma dependente: não pelo seu próprio poder, mas pela dependência de relações causais que levam a vir existir, em oposição à (ideia do) ser.

[Fonte: Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Nagarjuna%5D

Tradução livre para português brasileiro por muccamargo.

O Vazio Como ‘Não-É’ – Elemento

“Oh bom homem! A terra está sobre a água. Como a água é não-eterna, a terra, também, é não-eterna. A água paira sobre o vento, e como o vento é não-eterno, a água, também, é não-eterna. O vento repousa sobre o espaço, e como o espaço é não-eterno, o vento, também, é não eterno. Se é não-eterno, como podemos dizer: ‘O Vazio é eterno e preenche o espaço’? Como o Vazio é nulo, ele não tem passado, futuro ou presente. Como os chifres de uma lebre não são uma coisa, eles não têm passado, futuro ou presente. As coisas são assim. Portanto, Eu digo: ‘Como a Natureza de Buda é eterna, ela não cai dentro da categoria dos Três Tempos. Como o Vazio é Vazio, ele não cai dentro da categoria dos Três Tempos’.

Oh bom homem! Eu nunca brigo com o mundo. Por que não? Se o conhecimento mundano diz ‘é’, Eu digo ‘é’; se o conhecimento mundano diz ‘não-é’, Eu, também, digo ‘não-é’.”

Leia Mais no Sutra do Nirvana, Capítulo 42 – Sobre o Bodhisattva Kashyapa 3.

the void as not-is element.mp3

O Vazio Como ‘Não-É’ – Direção

“Oh bom homem! Se uma pessoa diz: ‘O lugar que se pode apontar é Vazio’, saiba que o Vazio é algo não-eterno. Por quê? Temos quatro direções para apontar. Se há os quatro quadrantes, saiba que o Vazio, também, deveria possuir as quatro direções. Tudo o que é eterno não tem direção para apontar. Ter direções significa que o Vazio, por conseguinte, é não-eterno. Se não-eterno, não está distante dos cinco skandhas. Se alguém dissesse que certamente há separação dos cinco skandhas, não haveria lugar para (ele) existir. Oh bom homem! Se existe alguma coisa através de relações causais, podemos saber que tal coisa é não-eterna. Oh bom homem! Por exemplo, todos os seres e árvores se apóiam no chão. Como o chão é não-eterno, o que se apoia no chão é, por conseguinte, não-eterno.”

Leia Mais no Sutra do Nirvana, Capítulo 42 – Sobre o Bodhisattva Kashyapa 3.

the void as not-is direction.mp3

O Vazio Como ‘Não-É’ – Dual

“Uma pessoa pode dizer: ‘O Vazio é, também, tanto o eterno como o não-eterno’. Isto está em desacordo com a razão. Uma pessoa pode dizer que coisas com partes comuns se juntam. O caso não é assim. Por que não? O Vazio é onipenetrante. Se ele junta-se com o que é criado, o que é criado também deveria tornar-se onipenetrante. Se ele penetra, tudo deve ser penetrante. Se tudo for onipenetrante, tudo pode ser juntado em um. Não podemos dizer que ambos possam existir, junção e não-junção. Uma pessoa pode dizer: ‘Aquilo que esteve junto, junta-se novamente, como no caso de dois dedos que se unem’. Mas, isto não é assim. Por que não? A união não pode preceder (anteceder). A união surge depois. Se o que não existia antes vem a existir, isto é nada mais que o não-eterno. Por isso, não podemos dizer: ‘O Vazio é aquilo que já esteve junto e [que agora] se junta’. O que se obtém no mundo é aquilo que não existia antes, mas que depois surge. Isto é como com uma coisa que não tem eternidade. Se o Vazio se situa numa coisa como o fruto dentro de um recipiente, se for assim, ele também deve ser não-eterno. Uma pessoa pode dizer que se o Vazio se situa numa coisa, ele é como o fruto num recipiente. Mas, isto não é assim. Por que não? Onde o Vazio em questão poderia existir, não tendo o recipiente às mãos? Se há qualquer lugar [para ele] existir, o Vazio teria que ser muitos. Se muitos, como diríamos eterno, uno, e onipenetrante? Se o Vazio existe em lugares fora do Vazio, então uma coisa poderia perfeitamente subsistir sem o Vazio. Assim, saiba-se que não pode haver tal coisa (dual) como (sendo) o Vazio.”

Leia Mais no Sutra do Nirvana, Capítulo 42 – Sobre o Bodhisattva Kashyapa 3.

the void as not-is dual.mp3

O Vazio Como ‘Não-É’ – Eterno

“Uma pessoa pode dizer: ‘O Vazio é eterno; e a sua natureza é imóvel. Esta (natureza) se junta com o que se move’. Mas, isto não é assim. Por que não? Se o Vazio é eterno, a matéria, também, deveria ser eterna. Se a matéria é não-eterna, o Vazio, também, deve ser não-eterno.”

Leia Mais no Sutra do Nirvana, Capítulo 42 – Sobre o Bodhisattva Kashyapa 3.

the void as not-is eternal.mp3

O Vazio Como ‘Não-É’ – Co-Existência

“Oh bom homem! Uma pessoa pode dizer: ‘O Vazio co-existe com o ‘é’ desobstruído’. Ou alguém pode dizer: ‘O Vazio existe dentro de uma coisa. É como o fruto dentro de um recipiente’. Nenhum deles é o caso. Há três tipos de co-existência, a saber: 1) coisas feitas diferentemente tornam-se unas, como no caso dos pássaros voando que se juntam numa árvore; 2) duas coisas comuns entre si tornam-se unas, como no caso de duas ovelhas que entram em contato; 3) co-existência de pares daqueles que se reúnem para existir no mesmo lugar. Dizemos ‘diferentes coisas se juntam’. Há dois tipos de diferenças. Um é uma ‘coisa’ (objeto), e o outro é o Vazio. Se a Vacuidade se junta com a coisa, essa Vacuidade deve ser não-eterna. Se uma coisa se junta com o Vazio, a coisa deixa de ser unilateral (individual, desigual, assimétrica). Se já não há nada que seja unilateral, novamente é não-eterno.”

Leia Mais no Sutra do Nirvana, Capítulo 42 – Sobre o Bodhisattva Kashyapa 3.

the void as not-is co-existence.mp3

O Vazio Como ‘Não-É’ – Desimpedimento

“Oh bom homem! As pessoas do mundo podem dizer: ‘Qualquer lugar do mundo onde não haja impedimento [obstáculo] é o Vazio’. Um lugar onde não há nada para obstruir é um completo ‘é’. Como pode qualquer existência ser parcial? Se for um completo ‘é’, pode-se saber que não há Vazio em outros lugares. Se for parcial, isso é uma coisa contável. Se contável, é não-eterna.”

Leia Mais no Sutra do Nirvana, Capítulo 42 – Sobre o Bodhisattva Kashyapa 3.

the void as not-is no hindrance.mp3

O Vazio Como ‘Não-É’ – Três Coisas

“Oh bom homem! Também, algumas pessoas dizem: ‘Ora, o Vazio nada mais é que essas três coisas: 1) Vazio, 2) Real, e 3) Vazio-Real’. Se dissermos que isto é o Vazio, dever-se-ia saber que o Vazio é não-eterno. Por quê? Porque ele não tem um lugar efetivo para existir. Se for dito que ele realmente é isto, devemos saber que o Vazio é não-eterno. Por quê? Porque não é nulo (vago). Se dissermos ‘Vazio-Real’, podemos saber que o Vazio é não-eterno. Por quê? Porque nada pode existir em dois lugares. Por isso, o Vazio é nulo.”

Leia Mais no Sutra do Nirvana, Capítulo 42 – Sobre o Bodhisattva Kashyapa 3.

the void as not-is three things.mp3

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