O Buda Deixa Kapilavastu

Rahula foi com seu pai, e Gopa alegrou-se. O rei Suddhodana, somente, ficou triste: sua família estava lhe abandonando! Ele não poderia deixar de falar o seu sentimento para o Mestre.

“Não sofra”, respondeu o Mestre, “pois grande é o tesouro que compartilharão aqueles que ouvirem minhas palavras e seguirem-me! Suporte a sua dor em silêncio; seja como o elefante ferido em batalha pelas lanças do inimigo: ninguém ouve a sua queixa. Reis montam na batalha sobre elefantes que estão sob absoluto controle; no mundo, o grande homem é aquele que aprendeu a controlar-se, o homem que suporta a sua dor em silêncio. Aquele que é verdadeiramente humilde, que doma (refreia) suas paixões como se doma cavalos selvagens, é invejado pelos Deuses. Ele não comete o mal. Nem nas cavernas da montanha, e nem nas grutas oceânicas, pode-se escapar das conseqüências de uma má ação; elas (as más ações) o seguem; elas fustigam-lhe; elas levam-no à loucura, pois não lhe dão paz! Mas se você faz o bem, quando você deixar a terra as suas boas ações lhe saudarão, como amigos após o seu regresso de uma viagem. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sem ódio num mundo cheio de ódio. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sãos num mundo cheio de doenças. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos incansáveis num mundo cheio de cansaço. Vivemos em perfeita felicidade, nós que nada possuímos. Alegria é a nossa comida, e somos como Deuses radiantes. O monge que vive em solidão preserva uma alma que é cheia de paz; ele contempla a verdade com um olhar límpido e calmo, e desfruta de uma felicidade desconhecida pelos mortais comuns.”

Tendo consolado o Rei Suddhodana com essas palavras, o Bem-Aventurado deixou Kapilavastu e retornou à Rajagriha.

Monte Gridhrakuta

Monte Gridhrakuta em Rajagriha. Click na imagem para post de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Herança de Rahula

Certo dia, a amável Gopa estava olhando para seu filho Rahula.

“Quão belo você é, meu filho!”, ela exclamou. “Como seus olhos brilham! Seu pai lhe deve uma herança piedosa; você deve ir e reinvidicá-la.”

Mãe e filho ascenderam ao terraço do palácio. O Bem-Aventurado estava passando na rua abaixo. Gopa disse a Rahula:

“Rahula, você vê aquele monge?”

“Sim, mãe”, respondeu a criança. “Seu corpo está coberto de ouro”.

“Ele é tão belo quanto os Deuses do céu! É a luz da santidade que faz sua pele reluzir como ouro. Eu o amo, meu filho, o amo ternamente, pois ele é seu pai. Outrora, ele possuíu grandes tesouros; possuía ouro, prata e jóias de brilhantes; agora, ele vai de casa em casa, esmolando por sua comida. Mas ele adquiriu um tesouro maravilhoso: atingiu a suprema sabedoria. Vá até ele, meu filho; diga-lhe quem você é, e requeira a sua herança.”

Rahula obedeceu à sua mãe. Pôs-se de pé diante do Buda. Sentia-se estranhamente feliz.

“Monge”, disse ele, “é maravilhoso estar aqui, sob sua sombra.”

O Mestre olhou para ele. Era um olhar terno, e Rahula, sentindo-se acolhido, começou a caminhar ao seu lado. Relembrando as palavras de sua mãe, ele disse:

“Sou seu filho, meu senhor. Sei que o senhor possui o maior dos tesouros. Pai, dê-me minha herança.”

O Mestre sorriu. Não respondeu. Continuou a esmolar. Mas Rahula permaneceu ao seu lado; continuou seguindo-o e repetia:

“Pai, dê-me minha herança.”

Rahula

O jovem Príncipe Rahula solicitado por sua mãe a pedir sua herança. Imagem via Wikipedia.

Por fim, o Mestre falou:

“Filho, você nada sabe sobre este tesouro que você tem ouvido os humanos louvarem. Quando você reclama a sua herança, pensa que está reinvidicando coisas materiais de natureza perecível. Os únicos tesouros conhecidos por você são aqueles cobiçados pela vaidade humana, tesouros que a morte voraz arranca do falso rico. Mas por que deveria você ser mantido na ignorância? Você está certo de reclamar sua herança, Rahula. Você terá seu quinhão dos tesouros que são meus. Você verá os sete tesouros; você conhecerá as sete virtudes, e aprenderá o verdadeiro valor da fé e da pureza, da modéstia e cautela (reserva), da obediência, da abnegação e sabedoria. Venha, eu o colocarei a cargo do Sagrado Shariputra; ele lhe ensinará.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Nanda Renuncia à Realeza

O Mestre tomou Nanda pelas mãos e deixou o palácio. Mas Nanda estava pensativo; estava com medo que tivesse sido precipitado. Talvez se arrependesse amargamente pelo que tinha feito. Afinal, o que quer que fosse dito (a respeito do mundo), era prazeiroso e nobre o exercício do poder soberano. E Sundarika? “Quão bela ela é”, ele pensou; “será que a verei novamente?” E soltou um suspiro profundo.

Mas ele ainda seguia o Mestre. Estava com medo de falar-lhe. Não só temia a sua repreensão como temia o seu desprezo.

Subitamente, conforme dobraram uma esquina, ele viu uma jovem donzela se aproximando. Ela estava sorrindo. Ele reconheceu Sundarika, e baixou seus olhos.

“Onde você está indo?”, ela indagou-lhe.

Ele não respondeu. Ela voltou-se para o Mestre. “Você o está levando consigo?”

“Sim”, respondeu o Mestre.

“Mas ele voltará logo?”

Nanda queria gritar: “Sim, voltarei logo Sundarika!” Mas ele estava com medo, e sem uma palavra, com os olhos ainda abatidos, ele se foi com o Mestre.

Então Sundarika soube que Nanda estava perdido para ela, e chorou.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Conversão de Nanda

Quando Siddharta se retirou do mundo, o Rei Suddhodana havia escolhido Nanda, um outro dos seus filhos, para sucedê-lo no trono. Nanda ficara feliz de pensar que um dia ele seria rei, e ficara também feliz com a idéia de seu casamento vindouro com a princesa Sundarika, a bela Sundarika a quem ele amava ternamente.

O Mestre temia por seu irmão; estava temeroso de que ele se perdesse no caminho do mal. Certo dia, foi a ele e disse-lhe:

“Vim a você, Nanda, porque sei que você está muito feliz, e quero ouvir de seus próprios lábios a razão para essa felicidade. Então fale, Nanda; desnude seu coração para mim.”

“Irmão”, respondeu Nanda, “Duvido que você compreenda, pois uma vez que você desprezou o poder soberano, eu e você desistimos do amor de Gopa!”

“Você espera ser rei algum dia, e esse é o porquê você está feliz, Nanda!”

“Sim. E eu estou tão feliz porque eu amo Sundarika, e porque Sundarika logo será minha noiva.”

“Pobre homem!”, lamentou o Mestre. “Como pode estar feliz, você que vive na escuridão? Você quer ver a luz? Então primeiro livre-se da felicidade: o medo nasce da felicidade, medo e sofrimento. Nem teme e nem sofre aquele que não sente mais felicidade. Livre-se do amor: o medo nasce do amor, medo e sofrimento. Nem teme e nem sofre aquele que não sente mais amor. Se você busca a felicidade no mundo, seus esforços serão em vão, o seu prazer se tornará dor; a morte está sempre presente, pronta para desabar sobre o infeliz e calar o seu riso e o seu cântico. O mundo é nada mais que chamas e fumaça, e todas as coisas no mundo sofrem pelo nascimento, pela velhice e pela morte. Desde que você lamentavelmente começou a vagar de existência para existência, você tem derramado mais lágrimas do que as águas que há nos rios ou nos mares. Você tem entristecido e tem chorado por ter sido contrariado em seus desejos, e tem chorado e entristecido quando aconteceu o que você temia. A morte da mãe, a morte do pai, a morte dos irmãos, a morte das irmãs, a morte de um filho, a morte de uma filha, oh, quantas vezes, através dos tempos, essas coisas não lhe causaram dor de cabeça? E quantas vezes você não perdeu a sua fortuna? E cada vez que você teve motivos para tristeza, você chorou, chorou e chorou, e derramou mais lágrimas do que as águas que há nos rios ou nos mares!”

Nanda, num primeiro momento, prestou pouca atenção ao que o Buda estava dizendo, mas conforme começou a ouvir, aquelas palavras tocaram-no profundamente. O Mestre continuou:

“Olhe para o mundo como uma bolha de sabão; como se fosse apenas um sonho, e a morte soberana passará por você.”

E ficou em silêncio.

“Mestre, Mestre”, clamou Nanda, “Serei seu discípulo! Leve-me com você.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Grande Virtude de Gopa

Naquela ocasião, as mulheres do palácio vieram prestar homenagem ao Mestre. Somente Gopa estava ausente.

“Solicitei à ela que viesse conosco”, disse Mahaprajapati. “’Não irei com vocês’, ela respondeu. ‘Posso estar carente em virtude; posso não merecer ver o meu marido. Se nada fiz de errado, ele virá a mim de sua própria vontade, e eu então mostrarei o respeito que lhe é devido’.”

O Mestre deixou o seu assento e foi aos aposentos de Gopa. Ela havia se despojado de suas indumentárias caras e seus véus leves; havia deixado de lado seus braceletes e seus colares; estava trajada num robe avermelhado, feito de algum tecido grosseiro. Ao vê-la vestida assim, ele sorriu de felicidade. Ela caiu aos seus pés e o reverenciou.

“Veja”, disse ela, “quiz vestir-me como você está vestido; procurei saber sobre sua vida no sentido de viver como você vive. Você come não mais que uma vez ao dia, e eu como não mais que uma vez ao dia. Você desistiu de dormir em uma cama; olhe ao redor: nenhuma cama você verá, e aqui está o tablado sobre o qual eu durmo. E de agora em diante, acabarei com os perfumes doces, e não mais colocarei flores no meu cabelo.”

“Estava ciente da sua grande virtude, Gopa”, respondeu o Mestre. “Você não falhou, e eu te louvo por isso. Quantas mulheres há neste mundo que teriam a coragem de fazer o que você fez?”

E sentando-se, ele disse essas palavras:

“As mulheres não são confiáveis. Para cada uma que é sábia e boa, mais que mil podem ser encontradas que são tolas e perversas. A mulher é mais misteriosa que o caminho de um peixe através da água; é tão cruel quanto um ladrão, e como o ladrão, ela é enganosa; ela raramente dirá a verdade, pois para ela uma mentira é como uma verdade e a verdade é como uma mentira. Frequentemente digo aos meus discípulos para evitar as mulheres. Desagrada-me até ter de falar-lhes. No entanto você, Gopa, não é falsa; acredito em sua virtude. Virtude é uma flor não facilmente encontrada, uma mulher deve ter olhos límpidos para poder vê-la; ela deve ter as mãos puras a fim de colhê-la. Mara esconde suas flechas aguçadas sob as flores. Oh, quantas mulheres adoram flores traiçoeiras, flores que infligem feridas que nunca cicatrizam! Mulheres infelizes! O corpo é nada mais que espuma, e elas não o conhecem. Elas apegam-se a esse mundo, e então vem o dia quando o Rei da Morte as reinvindica para si. O corpo é menos substancial que uma miragem: quem o sabe quebrará as setas floridas de Mara, quem o sabe nunca encontrará o Rei da Morte.  A morte leva embora a mulher que colhe flores descuidadamente, exatamente como a correnteza, engrossada pela tempestade, leva embora a aldeia sonolenta. Colha flores, oh mulher, deleite em suas cores, beba o seu perfume; a morte está a espreita por você, e antes que esteja satisfeita, você será dela. Considere a abelha: ela vai de flor em flor e, sem ferí-las, simplesmente pega o néctar do qual o mel é feito.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Dharmapala

“Você pertence à raça Shakya; Eu, no curso de minhas existências prévias, havia buscado a suprema sabedoria; Eu aprendi a beleza da caridade; Eu conheci a alegria do auto-sacrifício. Quando eu era a criança Dharmapala, a rainha, minha mãe, estava brincando comigo certo dia, e esqueceu de cumprimentar meu pai, o Rei Brahmadatta, conforme ele passou por nós. No sentido de puni-la, ele ordenou a um dos guardas a cortar as minhas mãos, por pensar que machucaria minha mãe muito mais ver-me sofrer, do que o sofrimento dela em si. Minha mãe implorou-lhe e ofereceu suas mãos (em meu lugar), mas ele era inexorável, e foi obedecido. Eu estava sorrindo, e ao ver-me sorrir, logo surgiu um sorriso na face de minha mãe. Meu pai então ordenou ao guarda cortar meus pés. Isto foi feito, e ainda eu continuava a sorrir. Num acesso de fúria, ele gritou: ‘Corte sua cabeça!’ Minha mãe ficou aterrorizada; ela prostrou-se diante dele: ‘Corte a minha cabeça’, ela implorou, ‘mas poupe o seu filho, oh Rei!’ O Rei estava prestes a ceder quando eu falei numa voz infantil: ‘Mãe, é para sua salvação que ofereço a minha cabeça. Quando eu estiver morto, deixe meu corpo ser colocado numa lança e exposto à vista; deixe-o ser comida para os pássaros do ar’. E, conforme o carrasco agarrou-me pelos cabelos, eu acrescentei: ‘Oh, que eu possa tornar-me o Buda e libertar todos os que nascem e que morrem em todos os mundos!’

E agora, Rei Suddhodana, finalmente atingi a sabedoria; Eu sou o Buda; Eu conheço o caminho que leva à libertação. Não me perturbe em minha tarefa. Fique desperto (atento), seja rápido na apreensão; siga o caminho sagrado da virtude. Ele (o Buda) repousa na paz de quem leva uma vida de santidade, Ele repousa na terra e nos outros mundos.”

O Rei Suddhodana chorou com admiração. O Buda continuou:

“Aprenda a distinguir a verdadeira virtude da falsa virtude; aprenda a distinguir o verdadeiro caminho daquele que é falso. Ele repousa na paz de quem leva uma vida de santidade, Ele repousa na terra e nos outros mundos!”

O rei caiu aos seus pés; acreditou nele, completamente. O Bem-Aventurado sorriu, e então entrou no palácio e sentou-se à mesa de seu pai.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Admoestação de Suddhodana

No dia seguinte, o Mestre foi cidade afora, esmolando sua comida de casa em casa. Ele logo era reconhecido, e o povo de Kapilavastu exclamava:

“Que estranha visão! O Príncipe Siddhartha, que outrora percorrera essas ruas trajado em robes magníficos, agora perambula de porta em porta, esmolando por comida, nos trajes humildes de um monge.”

E eles corriam para as janelas; ascendiam aos terraços, e grande era sua admiração pelo pedinte.

Uma das donzelas de Gopa ouviu os comentários quando estava deixando o palácio. Ela perguntou o motivo e a ela foi dito. Ela imediatamente correu de volta para a sua senhora.

“Seu marido, o Príncipe Siddhartha”, disse ela, “está perambulando pela cidade, como um monge mendicante!”

Gopa deu um salto. Ela pensou: “Ele que outrora, por todas as suas lindas jóias, foi radiante em luz, agora veste roupas grosseiras, agora tem como único adorno o brilho divino da sua pessoa”. E murmurou: “Quão belo ele deve estar!”

Ela ascendeu ao terraço do palácio. Circundado por uma multidão de pessoas, o Mestre vinha se aproximando. Um majestoso esplendor emanava da sua pessoa. Gopa estremeceu de alegria, e com uma voz cheia de fervor, ela cantou:

“Macio e brilhante é seu cabelo, resplandecente como o sol é sua fronte, radiante e sorridente é seu semblante! Ele espreita como um leão através da luz dourada!”

Ela foi ao Rei.

“Meu senhor”, disse ela, “seu filho está esmolando nas ruas de Kapilavastu. Uma multidão de admiradores segue-o, porque ele está mais belo do que nunca.”

Suddhodana ficou muito perturbado. Ele deixou o palácio, e aproximando-se do seu filho, disse-lhe:

“O que você está fazendo? Por que você esmola por sua comida? Certamente, você deve saber que lhe espero no palácio, você e seus discípulos.”

“Devo esmolar”, respondeu o Bem-Aventurado; “Devo obedecer a lei.”

“Somos uma raça de guerreiros”, disse o Rei; “nenhum Shakya jamais foi pedinte.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Visvantara era o Buda

O rei Sanjaya enviou um mensageiro ao Príncipe Visvantara; ele perdoou-lhe, e ordenou-lhe a voltar para Jayatura. Quando o príncipe aproximou-se da cidade, ele viu seu pai, sua mãe e suas crianças avançando para saudá-lo. Eram acompanhados por uma grande multidão de pessoas que tinham ouvido sobre os sofrimentos de Visvantara e da sua virtude, e que agora perdoavam e admiravam-lhe. E o rei disse ao príncipe: “Querido filho, cometi uma grande injustiça com você; saiba do meu remorso. Seja gentil comigo: esqueça meu erro! Seja gentil para com os habitantes da cidade: esqueça que eles alguma vez se enganaram com você. Nunca mais seus atos de caridade nos ofenderão.”

Visvantara sorriu e abraçou seu pai, enquanto Madri acariciava Jalin e Krishnajina, e Phusati chorava de alegria. E quando o príncipe passou através dos portões da cidade, foi aclamado em voz uníssona. Ora, Visvantara era Eu, oh Shakyas! Vocês aclamaram-me como eles certa vez aclamaram-no. Trilhem o caminho que conduz à libertação.”

O Bem-Aventurado ficou em silêncio. Os Shakyas haviam ouvido atentamente; e agora curvaram-se diante dele e retiraram-se. No entanto, nenhum deles havia pensado em oferecer-lhe sua refeição no dia seguinte.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Resgate de Jalin e Krishnajina

Neste ínterim, Jalin e Krishnajina haviam chegado ao seu novo lar. A esposa do brâmane ficou muito satisfeita com esses dois jovens escravos, e não perdeu tempo em colocá-los para trabalhar. Ela se deleitava em dar ordens, e as crianças tinham que obedecer ao seu menor capricho. No início, eles fizeram o possível para satisfazer os seus desejos, mas ela era uma ama tão exigente que logo eles perderam toda a vontade de agradá-la, e muitas foram as repreensões e castigos que eles receberam. Quanto mais severamente eles eram tratados, mais desencorajados se tornavam, e a mulher, finalmente, disse ao brâmane: “Não posso fazer nada com essas crianças. Venda-os e traga-me outros escravos, escravos que saibam como trabalhar e obedecer”. O brâmane pegou as crianças e foi de cidade em cidade, tentando vendê-los, mas ninguém compraria: o preço era muito alto. Ele finalmente chegou a Jayatura. Um dos conselheiros do rei passou por eles na rua; olhou para as crianças, seus corpos emaciados e faces queimadas pelo sol, e de repente, reconheceu-os por seus olhos. Ele parou o brâmane e indagou: “Onde você obteve essas crianças”? “Eu as obtive na floresta da montanha, meu senhor”, respondeu o brâmane. “Eles foram dados a mim para escravos; eram indisciplinados, e agora estou tentando vendê-los”. O conselheiro do rei ficou ansioso, voltou-se para as crianças e indagou: “Será que essa servidão significa que seu pai está morto”? “Não”, respondeu Jalin, “ambos nossos pais estão vivos, mas meu pai deu-nos para esse brâmane”. O conselheiro correu para o palácio do rei. “Meu senhor”, ele gritou, “Visvantara deu seus netos, Jalin e Krishnajina, a um brâmane. Eles são seus escravos. Ele está insatisfeito com seus serviços, e está levando-os de cidade em cidade, com a intenção de vendê-los”! O Rei Sanjaya ordenou ao brâmane que as crianças fossem logo trazidas para diante dele. Elas logo foram encontradas, e quando o rei viu a miséria que havia advindo a essas crianças da sua raça, ele chorou amargamente. Jalin dirigiu-se a ele numa voz suplicante: “Compre-nos, meu senhor, pois somos infelizes na casa do brâmane, e desejamos viver com você, que nos ama. Mas não tome-nos a força; nosso pai deu-nos ao brâmane, e desse sacrifício ele espera receber uma grande bênção, para si e para todas as criaturas”. “Qual o preço que você quer pelas crianças”?, indagou o rei ao brâmane. “Você pode obtê-las por mil cabeças de gado”, respondeu o brâmane. “Muito bem”! O rei voltou-se para o seu conselheiro e disse: “Você que agora assumirá um posto próximo a mim em meu reinado, dê a esse brâmane as mil cabeças de gado, e pague-lhe também mil medidas de ouro”. Então o rei, acompanhado por Jalin e Krishnajina, foi à Rainha Phusati. Ao ver os seus netos, ela ria e chorava de alegria; vestiu-lhes em roupas finas, e deu-lhes anéis e colares para usar. Então, ela indagou-lhes sobre seu pai e sua mãe. “Eles vivem numa cabana rude, na floresta, ao sopé de uma montanha”, disse Jalin. Eles têm doado todas as suas posses. Vivem de frutos e água, e suas únicas companhias são os animais selvagens da floresta”. “Oh, meu senhor”, clamou Phusati, “você não resgatará seu filho do exílio”?

André Felipe e Fernanda Regina

André Felipe e Fernanda Regina, meus filhos, no sítio da Dôra em 14/01/2012. Foto de Diego Raphael.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Os Expedientes de Indra

Ele finalmente chegou à uma montanha, encoberta por uma imensa floresta, e lá ele encontrou uma cabana que um eremita ocupou certa vez. De folhas, ele fez uma cama para si e sua família, e ali, enfim, imperturbado pelo remorso, ele encontrou descanso e paz. Todos os dias, Madri ia floresta adentro para colher frutos silvestres; era a única comida que tinham, e bebiam a água de uma fonte límpida e borbulhante, que eles haviam descoberto próximo à cabana. Durante sete meses, eles não viram ninguém; então, certo dia, um brâmane passou por lá. Madri estava longe, colhendo frutos, e Visvantara estava olhando as crianças enquanto brincavam na frente da cabana. O brâmane parou e observou-os cuidadosamente. “Amigo”, disse ele ao pai, “você me daria suas crianças”? Visvantara ficou tão surpreso que foi incapaz de responder. Ele olhou ansiosamente para o brâmane que, novamente, o questionou: “Sim, você me daria suas crianças? Eu tenho uma esposa, muito mais jovem do que eu. Antes de tudo, ela é uma mulher altiva. Está cansada de fazer as tarefas do lar, e pediu-me para encontrar duas crianças que pudessem ser seus escravos. Por que não me dá as suas? Você parece ser muito pobre; deve ser difícil para você alimentá-los. Em minha casa eles terão fartura de alimentos, e eu farei com que minha esposa os trate tão gentilmente quanto possível”. Visvantara pensou: “Que sacrifício doloroso estou sendo solicitado a fazer. O que farei? Apesar do que diz o brâmane, minhas crianças serão muito infelizes em sua casa; sua esposa é cruel, ela lhes baterá e lhes dará somente restos de comida. Mas, uma vez que ele tenha solicitado-me por elas, eu tenho o direito de recusar”? Ele pensou um pouco mais, e então finalmente disse: “Leve as crianças com você, brâmane; deixe-os ser escravos da sua esposa”. E Jalin e Krishnajina, com suas faces banhadas em lágrimas, foram embora com o brâmane. Madri, neste ínterim, tinha estado colhendo romãs, mas cada vez que ela arrancava uma da árvore, ela escapava das suas mãos. Isto amedrontou-lhe, e ela correu de volta para a cabana. Ela sentiu a falta dos filhos, e voltando-se para o marido, perguntou-lhe: “Onde estão as crianças”? Visvantara estava soluçando. “Onde estão as crianças”? Ainda nenhuma resposta. Ela repetiu a questão uma terceira vez: “Onde estão as crianças”? E acrescentou: “Responda, responda logo. Seu silêncio está me matando”. Visvantara falou, com uma voz triste, ele disse: “Um brâmane veio; ele queria as crianças para escravos”! “E você os deu a ele?”, gritou Madri. “Eu poderia recusar”? Madri desmaiou; ficou inconsciente por um longo tempo. Quando ela se recobrou, suas lamentações eram tristes. Ela clamava: “Oh, minhas crianças, vocês que me despertavam do meu sono à noite, vocês que me davam o melhor dos frutos que eu havia colhido, um homem mau os levou para longe! Posso vê-lo forçando-os a trabalhar, vocês que mal aprenderam a caminhar. Naquela casa, vocês passarão fome; serão brutalmente espancados. Vocês estarão trabalhando na casa de um estranho. Vocês furtivamente espreitarão as estradas, mas nem pai e nem mãe verão novamente. Seus lábios ressecarão; seus pés serão feridos pelas pedras cortantes; o sol queimará suas faces. Oh, minhas crianças, sempre fomos capazes de poupá-los das dificuldades que tivemos que enfrentar. Carregamos-lhes através do temeroso deserto; vocês não sofriam então, mas agora, quanto será o seu sofrimento”? Ela ainda estava chorando quando um outro brâmane chegou através da floresta. Era um homem velho e caminhava com grande dificuldade. Ele olhou para a princesa com os olhos lacrimejantes, e então dirigiu-se ao Príncipe Visvantara: “Meu senhor, como você vê, estou velho e fraco. Não há ninguém em casa para ajudar-me quando me levanto pela manhã ou quando vou dormir à noite; não tenhos filhos ou filhas para cuidar de mim. Ora, essa mulher é jovem; parece muito forte. Deixe-me levá-la como empregada. Ela me ajudará a levantar; e me colocará para dormir; e tomará conta de mim enquanto durmo. Dê-me essa mulher, meu senhor; você estará fazendo uma boa ação, uma ação sagrada, a qual será enaltecida por todo mundo”. Visvantara havia escutado atentamente; estava pensativo. Olhou para Madri, e disse: “Amada, você ouviu o que o brâmane disse; o que você responderia”? Ela respondeu: “Uma vez que você deu nossas crianças: Jalin, o mais amado, e a querida Krishnajina; então você pode dar-me a esse brâmane; não reclamarei”. Visvantara pegou as mãos de Madri e colocou-as nas mãos do brâmane. Ele não sentiu remorso; nem mesmo chorou. O brâmane recebeu a mulher; agradeceu ao príncipe e disse: “Você pode conhecer a grande glória, Visvantara; você pode tornar-se um Buda algum dia”! Ele começou a se afastar mas virou, de repente, e voltou para a cabana. E disse: “procurarei uma empregada em alguma outra terra; deixarei essa mulher aqui, para ficar com os Deuses da montanha, e as Divindades da floresta e da fonte; e, doravante, você não deve dá-la a mais ninguém”. Enquanto o velho homem estava falando, sua aparência gradualmente mudou; ele tornou-se muito belo; sua face era gloriosamente radiante. Visvantara e Madri reconheceram Indra. Eles caíram aos seus pés e adoraram-lhe; e o Deus disse-lhes: “Cada um de vocês pode pedir-me um favor, e será atendido”. Visvantara disse: “Oh, que eu possa tornar-me o Buda algum dia e trazer a libertação para aqueles que nascem e que morrem nas montanhas”! Indra respondeu: “Glória a você que, um dia, será o Buda”! Madri falou a seguir: “Meu senhor, atenda meu pedido: que o brâmane, a quem minhas crianças foram dadas, decida vendê-las ao invés de mantê-las em sua casa, e que ele encontre um comprador justamente em Jayatura, e que o comprador seja o próprio Sanjaya”. Indra respondeu: “Assim será!” Conforme ele ascendeu ao céu, Madri murmurou: “Oh, que o Rei Sanjaya perdoe seu filho”! E ela ouviu o Deus dizer: “Assim será”!

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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