A Herança Real dos Filhos do Buda

“Aí então, o velho deu-lhe um nome, chamando-o seu filho. O filho pobre, embora feliz com os acontecimentos, ainda considerava-se um trabalhador forasteiro e subalterno. Por esta razão, por vinte anos ele permaneceu constantemente ocupado com o trabalho de varrição e coleta de estrume”.

 “Depois desse tempo, confiaram-lhe um outro trabalho, e ele assumiu sem dificuldades. Todavia, ele ainda permaneceu no mesmo lugar de antes”.

 “Honrado pelo Mundo, naquela ocasião, o velho adoeceu e soube que logo morreria. Ele disse ao filho pobre: ‘Possuo muito ouro, prata, jóias e meus celeiros e armazéns estão abarrotados. Você deve saber em detalhes as quantidades e valores a serem recebidos ou pagos. Tais são meus pensamentos, e você deve compreender o quê eles significam. Qual é a razão? Agora, não há diferença entre eu e você. Você deve ser muito mais cuidadoso para que nada se perca’”.

“Naquela ocasião, o filho pobre, tendo recebido essas instruções, encarregou-se de todos os bens, o ouro, a prata e as gemas preciosas, bem como os celeiros e armazéns, todavia não exigindo mais que uma simples refeição para tanto. Continuou no mesmo lugar, ainda incapaz de abandonar suas idéias subalternas[1]”.

 “Decorrido um curto tempo, o pai soube que seu filho tinha tornado-se mais calmo, que havia tomado uma grande decisão e abandonado suas idéias anteriores. Sabendo que seu próprio fim estava próximo, ele ordenou a seu filho convocar ministros, Kshatriyas e magistrados. Quando estavam todos reunidos, ele falou-lhes dizendo: ‘Todos os senhores devem saber que este é meu filho, gerado por mim. Numa certa cidade, ele deixou-me e afastou-se para sofrer de desolação, pobreza e miséria por cerca de cinqüenta anos. Seu nome original era tal e tal, e meu nome era tal. Há muito tempo atrás, na minha cidade natal, eu procurava-o ansiosamente. Este é realmente meu filho. Eu sou realmente seu pai. Todos os meus bens e fortuna agora pertencem a este meu filho, e tudo aquilo que é pago ou recebido é do seu conhecimento’[2]”.

“Honrado pelo Mundo, quando o pobre filho ouviu o quê o seu pai estava dizendo, regozijou-se enormemente, tendo obtido o que nunca houvera tido, e pensou: ‘Originalmente, eu não tinha idéia de buscar nada, e agora este tesouro veio para mim por si mesmo’”.

“Honrado pelo Mundo, o grande e rico velho é o Tathagata. Nós somos todos como os filhos do Buda. O Tathagata sempre diz que somos seus filhos”.


[1] É como abraçar este Sutra da Flor de Lótus da Lei Maravilhosa, o tesouro secreto dos Budas, e continuar preso aos desejos mundanos e às noções dos ensinamentos provisórios; todas essas coisas relacionadas às necessidades subalternas. Com relação a isso, o Pai afirma: “Agora, não há diferença entre Eu e você”.

[2] Que são as retribuições e benefícios da Lei.

Extraído do CAP. 04: Fé e Compreensão

Filhos do Buda
Foto de Marcos Ubirajara. Local: Sítio da Dôra – Abril/2007.

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