As Quatro Inversões do Dharma

Então, todos os Monges disseram ao Buda: “Não somente praticamos a meditação sobre o altruísmo, mas ainda outras meditações, a saber: todas aquelas relativas ao Sofrimento, à Impermanência, e ao Altruísmo. Oh Honrado pelo Mundo! Uma pessoa quando embriagada, a mente gira, e todas as montanhas, rios, castelos, palácios, o sol, a lua e as estrelas parecem girar também. Oh Honrado pelo Mundo! Qualquer pessoa que não pratique a meditação sobre a Impermanência e o Altruísmo não pode ser chamada de sábia. Devido à indolência, reciclamos entre o nascimento e a morte. Oh Honrado pelo Mundo! Em razão disto, praticamos tais meditações.”

Então o Buda disse a todos os Monges: “Ouçam-me bem, ouçam-me bem! Agora vocês mencionam o caso de uma pessoa embriagada. Isto se refere ao conhecimento, mas não à significação. O que eu entendo por significação? A pessoa embriagada vê o sol e lua, que não se movem, mas ela pensa que sim. O mesmo é o caso com os seres. Como o peso de todas as ilusões e da ignorância recai sobre [a mente], a mente vira de cabeça para baixo e passa a entender o Eu como não-Eu, o Eterno como Impermanente, a Pureza como Impureza, e a Felicidade como Sofrimento. (Com a mente) sobrecarregada pelas ilusões, esses pensamentos surgem. Embora esses pensamentos surjam, o significado não é compreendido. Isto é como no caso da pessoa embriagada que vê o que não se move como se estivesse se movendo. O ‘Eu’ significa o Buda; ‘Eterno’ significa o Dharmakaya; ‘Felicidade’ significa Nirvana, e ‘Puro’ significa Dharma. Monges, por é que se diz que aquele que tem a idéia de um Eu é um arrogante e orgulhoso girando no Samsara? Monges, embora vocês digam ‘nós também meditamos (cultivamos) sobre a impermanência, o sofrimento, e o não-eu’, esses três tipos de cultivo não possuem um valor ou significado real. Agora eu explicarei as três formas excelentes de cultivar o Dharma. Pensar no sofrimento como felicidade e pensar na felicidade como sofrimento é uma perversão do Dharma; pensar o impermanente como eterno e pensar o eterno como impermanente é uma perversão do Dharma; pensar o não-eu [anatman] como eu [atman] e pensar o Eu como não-eu é uma perversão do Dharma; pensar o impuro como puro e pensar o puro como impuro é uma perversão do Dharma. Aqueles que têm esses quatros tipos de perversões são pessoas que não conhecem o correto cultivar dos dharmas. Monges, vocês dão lugar à idéia de Felicidade referenciada aos fenômenos associados com o sofrimento; à idéia de Eternidade referenciada aos fenômenos associados com a impermanência; à idéia do Eu referenciada aos fenômenos destituídos do Eu; e à idéia da Pureza referenciada aos fenômenos que são impuros. Ambos, o mundano e também o supramundano, têm o Eterno, a Felicidade, o Eu, e a Pureza. Ensinamentos mundanos [dharmas] têm letras e são sem significado; os ensinamentos Supramundanos têm letras e significado. Por quê? Porque as pessoas mundanas têm essas quatro perversões, elas são inaptas para compreender o verdadeiro significado. Por quê? Tendo essas idéias perversas, seus pensamentos e visões são distorcidos. Através dessas quatro perversões, as pessoas mundanas vêem sofrimento na Felicidade, impermanência no Eterno, não-Eu no Eu, e impureza na Pureza. Elas são chamadas perversões/inversões. Em razão dessas perversões/inversões, as pessoas mundanas conhecem as letras, mas não o significado. O que é o significado/referente? Não-Eu é Samsara, o Eu é o Tathagata; impermanência são os sravakas e pratyekabudas, o Eterno é o Dharmakaya do Tathagata; sofrimento são todos os tirthikas [seres deludidos, não-Budistas], Felicidade é Nirvana; o impuro são todos os dharmas compostos [samskrta], o Puro é o Dharma Verdadeiro que o Buda e os Bodhisattvas têm. Isto é chamado não-perversão/não-inversão. Não sendo invertido, se saberá ambos, a letra e o significado. Se desejamos nos livrar das quatro perversões/inversões, deveremos conhecer o Eterno, a Felicidade, o Eu, e a Pureza dessa maneira (acima descrita).”

Excerto do Sutra do Nirvana, CAP. 03: Sobre Ofensas.

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