O Buda Deixa Kapilavastu

Rahula foi com seu pai, e Gopa alegrou-se. O rei Suddhodana, somente, ficou triste: sua família estava lhe abandonando! Ele não poderia deixar de falar o seu sentimento para o Mestre.

“Não sofra”, respondeu o Mestre, “pois grande é o tesouro que compartilharão aqueles que ouvirem minhas palavras e seguirem-me! Suporte a sua dor em silêncio; seja como o elefante ferido em batalha pelas lanças do inimigo: ninguém ouve a sua queixa. Reis montam na batalha sobre elefantes que estão sob absoluto controle; no mundo, o grande homem é aquele que aprendeu a controlar-se, o homem que suporta a sua dor em silêncio. Aquele que é verdadeiramente humilde, que doma (refreia) suas paixões como se doma cavalos selvagens, é invejado pelos Deuses. Ele não comete o mal. Nem nas cavernas da montanha, e nem nas grutas oceânicas, pode-se escapar das conseqüências de uma má ação; elas (as más ações) o seguem; elas fustigam-lhe; elas levam-no à loucura, pois não lhe dão paz! Mas se você faz o bem, quando você deixar a terra as suas boas ações lhe saudarão, como amigos após o seu regresso de uma viagem. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sem ódio num mundo cheio de ódio. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sãos num mundo cheio de doenças. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos incansáveis num mundo cheio de cansaço. Vivemos em perfeita felicidade, nós que nada possuímos. Alegria é a nossa comida, e somos como Deuses radiantes. O monge que vive em solidão preserva uma alma que é cheia de paz; ele contempla a verdade com um olhar límpido e calmo, e desfruta de uma felicidade desconhecida pelos mortais comuns.”

Tendo consolado o Rei Suddhodana com essas palavras, o Bem-Aventurado deixou Kapilavastu e retornou à Rajagriha.

Monte Gridhrakuta

Monte Gridhrakuta em Rajagriha. Click na imagem para post de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Admoestação de Suddhodana

No dia seguinte, o Mestre foi cidade afora, esmolando sua comida de casa em casa. Ele logo era reconhecido, e o povo de Kapilavastu exclamava:

“Que estranha visão! O Príncipe Siddhartha, que outrora percorrera essas ruas trajado em robes magníficos, agora perambula de porta em porta, esmolando por comida, nos trajes humildes de um monge.”

E eles corriam para as janelas; ascendiam aos terraços, e grande era sua admiração pelo pedinte.

Uma das donzelas de Gopa ouviu os comentários quando estava deixando o palácio. Ela perguntou o motivo e a ela foi dito. Ela imediatamente correu de volta para a sua senhora.

“Seu marido, o Príncipe Siddhartha”, disse ela, “está perambulando pela cidade, como um monge mendicante!”

Gopa deu um salto. Ela pensou: “Ele que outrora, por todas as suas lindas jóias, foi radiante em luz, agora veste roupas grosseiras, agora tem como único adorno o brilho divino da sua pessoa”. E murmurou: “Quão belo ele deve estar!”

Ela ascendeu ao terraço do palácio. Circundado por uma multidão de pessoas, o Mestre vinha se aproximando. Um majestoso esplendor emanava da sua pessoa. Gopa estremeceu de alegria, e com uma voz cheia de fervor, ela cantou:

“Macio e brilhante é seu cabelo, resplandecente como o sol é sua fronte, radiante e sorridente é seu semblante! Ele espreita como um leão através da luz dourada!”

Ela foi ao Rei.

“Meu senhor”, disse ela, “seu filho está esmolando nas ruas de Kapilavastu. Uma multidão de admiradores segue-o, porque ele está mais belo do que nunca.”

Suddhodana ficou muito perturbado. Ele deixou o palácio, e aproximando-se do seu filho, disse-lhe:

“O que você está fazendo? Por que você esmola por sua comida? Certamente, você deve saber que lhe espero no palácio, você e seus discípulos.”

“Devo esmolar”, respondeu o Bem-Aventurado; “Devo obedecer a lei.”

“Somos uma raça de guerreiros”, disse o Rei; “nenhum Shakya jamais foi pedinte.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Cidade de Indra

Do céu, Indra vinha acompanhando Visvantara e sua família. Ele estava sensibilizado pela aflição de Madri, e decidiu descer à terra. Ele assumiu a forma de um gentil homem de idade e, montado em um cavalo veloz, ele avançou ao encontro do príncipe. Ele abordou Visvantara e se dirigiu a ele de uma maneira envolvente. “Pela sua aparência, meu senhor, fica evidente que você tem sofrido grandes dificuldades. Há uma cidade não muito longe daqui. Mostrarei a você o caminho. Você e sua família devem vir para minha casa e lá permanecer o quanto queiram”. O velho homem estava sorrindo. Ele pediu que os quatro exilados subissem em seu cavalo, e como Visvantara parecia hesitar, ele disse: “O cavalo é poderoso, e você não é pesado. Quanto a mim, seguirei a pé, não me cansará, pois não temos muito a caminhar”. Visvantara ficou atônito ao saber que uma cidade havia sido construída naquele deserto cruel; além disso, ele nunca tinha ouvido falar dessa cidade. Mas a voz do velho homem era tão gentil que ele decidiu seguí-lo, e Madri estava tão cansada que ele aceitou o convite  para montar com ela e as crianças.

Eles haviam caminhado cerca de trezentos passos quando uma magnífica cidade apareceu diante deles. Era imensa. Um majestoso rio fluía através dela, e havia muitos belos jardins e pomares cheios de frutas maduras. O velho homem conduziu seus convidados até os portões de um palácio brilhante. “Aqui é minha casa”, disse ele; “aqui, se desejarem, vocês poderão residir pelo resto de suas vidas. Por favor, entrem”. No grande salão, Visvantara e Madri sentaram-se em tronos de ouro; aos seus pés, as crianças brincavam em espessos tapetes, e o velho homem presenteou-os com robes muito belos. Comidas raras então lhes foram servidas, e eles aplacaram a sua fome. Mas, Visvantara estava perdido em pensamentos. De repente, ele levantou-se de seu assento, e disse ao velho homem: “Meu senhor, estou desobedecendo as determinações de meu pai. Ele baniu-me de Jayatura, onde ele é rei, e ordenou-me a passar o resto de minha vida no deserto. Não devo desfrutar desses confortos, porque foram (a mim) proibidos. Meu senhor, permita-me deixar sua casa”. O velho homem tentou dissuadi-lo, mas em vão; e seguido por Madri e as crianças, Visvantara deixou a cidade. De fora dos portões, ele voltou-se para lançar um último olhar, mas a cidade havia desaparecido; onde ele havia estado, agora era somente areia ardente. E Visvantara ficou feliz por não ter permanecido (lá) por mais tempo.

A Cidade de Indra

Visvantara e sua família na Cidade de Indra. Clique na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Exílio de Visvantara

Mas os habitantes de Jayatura ficaram muito angustiados; eles temiam uma seca em seu próprio país. Eles reclamaram ao Rei Sanjaya: “Meu senhor”, disseram, “o ato do seu filho foi repreensível. Seu elefante protegia-nos da fome. O que será de nós agora, se o céu retiver a sua chuva? Mostre-lhe impiedade, oh Rei; faça-lhe pagar por essa loucura com sua própria vida”. O rei chorou. Ele tentou colocá-los para fora com  promessas, às quais, inicialmente, eles não ouviriam, mas finalmente cederam e exigiram que o príncipe fosse exilado em algum deserto remoto e rochoso. O rei foi obrigado a dar o seu consentimento. “Quando meu filho ouvir sobre o seu exílio”, pensou Sanjaya, “ele vai senti-lo em seu coração”. Mas este não foi o caso. Visvantara simplesmente disse: “Deixarei (Jayatura) amanhã, pai, e não levarei nenhum dos meus tesouros comigo”. E então ele foi ver Madri, sua princesa. “Madri”, disse ele, “devo deixar a cidade; meu pai exilou-me num deserto cruel, onde será difícil encontrar um meio de subsistência. Não venha comigo, oh amada; serão muito grandes as dificuldades que você terá de suportar. Você terá que deixar as crianças para trás, e eles morrerão de solidão. Fique aqui com eles; permaneça no seu trono de ouro; foi a mim que meu pai exilou, não a você”. “Meu senhor”, respondeu a princesa, “se você deixar-me para trás eu me matarei, e o crime vai bater à sua porta”. Visvantara permaneceu em silêncio. Ele olhou para Madri, e abraçou-a. “Venha”, disse ele. Madri agradeceu-lhe, e acrescentou: “levarei as crianças comigo; não posso deixá-las aqui, para morrer de solidão”. No dia seguinte, Visvantara teve sua carroça preparada; ele partiu com Madri, Jalin e Krishnajina, e como foram expulsos da cidade, o Rei Sanjaya e a Rainha Phusati choraram e soluçaram lamentavelmente.

O príncipe, sua esposa e as crianças já se encontravam longe da cidade quando viram um brâmane aproximando-se. “Viajante”, disse o brâmane, “esta é a estrada para Jayatura”? “Sim”, respondeu Visvantara, “mas por que você está indo para Jayatura”? “Venho de um país distante”, disse o brâmane. “Ouvi que lá em Jayatura vivia um príncipe generoso chamado Visvantara. Ele possuía um elefante maravilhoso que ele deu ao rei de Kalinga. Ele é muito caridoso, disseram. Quero ver esse homem bondoso; quero pedir-lhe por uma doação. Sei que ninguém jamais recorreu a ele em vão”. Visvantara disse ao brâmane: “eu sou o homem que você procura; eu sou Visvantara, fillho do Rei Sanjaya. Em razão de eu ter dado meu elefante ao rei de Kalinga, meu pai mandou-me para o exílio. O que posso dar-lhe, oh brâmane”? Quando ouviu essas palavras, o brâmane lamentou amargamente. Ele disse numa voz triste: “Então eles me enganaram! Deixei minha casa, cheio de esperança e, com desaponto, devo agora retornar”! Visvantara o interpelou: “Console-se, brâmane. Você não recorreu ao Príncipe Visvantara em vão”. Ele desatrelou os cavalos e lhos deu. O brâmane agradeceu seu benfeitor e partiu. Visvantara então seguiu em seu caminho. Ele mesmo estava puxando a carroça agora. Naquele momento, ele viu um outro brâmane aproximando-se. Era um homem pequeno, frágil e velho, com cabelos brancos e dentes amarelados. “Viajante”, ele disse ao príncipe, “esta é a estrada para Jayatura”? “Sim”, respondeu o príncipe, “mas por que você está indo para Jayatura”? “O rei daquela cidade tem um filho, o Príncipe Visvantara”, disse o brâmane. “Visvantara, de acordo com as histórias que tenho ouvido, é extremamente caridoso; ele salvou o reinado de Kalinga da fome, e o que quer que seja solicitado dele nunca é recusado. Irei a Visvantara, e sei que ele não negará o meu pedido”. “Se você vai a Jayatura”, disse o príncipe, “você não verá Visvantara; seu pai o exilou num deserto”. “Ai de mim”, lamentou o brâmane. “Quem agora poderá me ajudar na minha frágil velhice? Toda a esperança que eu tinha se foi, e retornarei para minha casa tão pobre quanto quando a deixei!” Ele chorou. “Não chore”, disse Visvantara; “eu sou o homem que você procura. Você não me encontrou em vão. Madri, Jalin, Krishnajina, desçam da carroça! Ela não me pertence mais: Eu lha dei a este velho homem”. O brâmane ficou muito feliz. Os quatro exilados seguiram em seu caminho. Seguiam agora a pé, e quando as crianças estavam cansadas, Visvantara carregava Jalin, e Madri carregava Krishnajina. Alguns dias depois, eles viram um terceiro brâmane se aproximando. Ele estava indo para Jayatura para ver o Príncipe Visvantara e pedir-lhe por esmolas. O príncipe despojou-se de suas roupas, no sentido de que o brâmane não lhe deixasse de mãos vazias. Então, ele seguiu. E um quarto brâmane aproximou-se. Sua pele estava escura, seu olhar feroz e imperioso. “Diga-me”, ele disse em uma voz áspera, “esta é a estrada para Jayatura”? “Sim”, respondeu o príncipe, “e o que o leva a Jayatura”? O brâmane desejava ver Visvantara, que estava certo de dar-lhe um magnífico presente. Quando ele ouviu que estava na presença de um infeliz, um príncipe exilado, ele não chorou; em uma voz irada, ele disse, foi um caminho difícil de ser percorrido, e não deve ter sido em vão. Indubitavelmente você deve ter trazido consigo alguma jóia valiosa que você pode dar-me”. Madri estava usando um colar de ouro. Visvantara pediu-lhe o colar; ela sorriu e lho entregou, e o brâmane pegou o colar e foi-se embora. Visvantara, Madri, Jalin e Krishnajina continuaram a caminhar. Atravessaram correntezas furiosas; subiram ravinas cobertas de vegetação rasteira; viajaram através de planícies rochosas fustigadas por um sol impiedoso. Os pés de Madri estavam cortados pelas pedras; os calcanhares de Visvantara estavam gastos até os ossos, e por onde quer que passassem, deixavam uma trilha de sangue. Certo dia, Visvantara, que estava caminhando adiante, ouviu alguém chorando. Ele voltou-se para trás e viu Madri sentada no chão, lamentando seu destino. Ele ficou tomado pela angústia, e disse: “Eu insisti e implorei a você, minha amada, que não me seguisse no exílio, mas você não me ouviu. Venha, levante-se; embora seja grande o nosso cansaço, as crianças não devem sofrer por ele; não devemos mentalizar as nossas feridas”. Madri viu que seus pés estavam sangrando, e ela chorou: “Oh, quão maior é o seu sofrimento que o meu! Controlarei a minha dor”. Ela tentou levantar, mas seus membros cederam, e novamente ela caiu em prantos. “Todas as minhas forças se foram”, ela soluçou; “mesmo o amor que eu nutria por meu marido e minhas crianças não é suficiente para sustentar a minha coragem. Morrerei de fome e de sede nesta terra terrível; minhas crianças morrerão, e talvez meu bem-amado”.

O Exílio de Visvantara

Madri desfalece no exílio de Visvantara - clique na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Elefante de Visvantara

O Elefante de Visvantara

O Elefante de Visvantara - clique na imagem para site de origem.

Um magnificente assento havia sido preparado para o Mestre, Ele sentou. Então o céu se abriu, e uma chuva de rosas caiu sobre o parque. A terra e a atmosfera ficaram impregnadas com o perfume. O rei e todos os Shakyas olharam com espanto. E o Mestre falou:

Em alguma existência anterior, eu já havia visto minha família reunida ao meu redor e lhes ouvi cantar louvoures a mim em voz uníssona. Naquele tempo, o Rei Sanjava estava reinando na cidade de Jayatura. O nome da sua consorte era Phusati, e eles tinham Visvantara. Quando atingiu a idade, Visvantara casou-se com Madri, uma princesa de rara beleza. Ela lhe deu dois filhos: um filho, Jalin, e uma filha, Krishnajina. Visvantara possuía um elefante branco que tinha o poder maravilhoso de fazer a chuva cair à vontade. Naquela ocasião, o distante reinado de Kalinga estava sendo visitado por uma terrível seca. A grama secou; as árvores não frutificavam; humanos e animais morriam de fome e sede. O rei de Kalinga ouviu sobre o elefante de Visvantara e sobre o estranho poder que ele possuía. Ele enviou oito brâmanes à Jayatura para pegá-lo e retornar com ele para o seu desafortunado país. Os brâmanes chegaram durante um festival. Montado sobre o elefante, o príncipe estava a caminho do templo para distribuir donativos. Ele viu esses enviados do rei estrangeiro. “O que trouxe vocês aqui”, indagou-lhes. “Meu senhor”, responderam os brâmanes, “nosso reinado, o reinado de Kalinga, tem sido visitado pela seca e pela fome. Seu elefante pode salvar-nos, trazendo-nos a chuva; você se apartaria dele”? “É pouco o que pedem”, disse Visvantara. “Vocês poderiam ter pedido por meus olhos ou minha carne! Sim, peguem o elefante, e que assim possa uma refrescante chuva cair sobre seus campos e sobre seus jardins!” Ele deu o elefante para os brâmanes, e eles alegremente retornaram para Kalinga.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Chegada à Kapilavastu

Ele finalmente chegou à Kapilavastu. Para recebê-lo, os Shakyas se reuniram num parque resplandecente em flores. Muitos dos presentes eram extremamente orgulhosos, e pensaram: “Há alguns aqui que são mais velhos do que Siddhartha! Por que eles devem prestar-lhe homenagem? Deixe as crianças, os jovens rapazes e donzelas, curvarem-se diante dele; os mais velhos devem manter a cabeça erguida!”

O Bem-Aventurado adentrou o parque. Todos os olhos ficaram deslumbrados pela luz brilhante que ele emanava. O Rei Suddhodana ficou profundamente comovido; deu alguns passos em sua direção: “Meu filho…”, ele gritou. Sua voz embargou; lágrimas de alegria escorreram em sua face, e ele lentamente curvou a sua cabeça.

E quando os Shakyas viram o pai prestando homenagem ao filho, todos eles prostraram-se humildemente.

Kapilavastu

O Portão Oeste de Kapilavastu

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Zelo de Udayin

Era uma grande distância de Rajagriha à Kapilavastu, e o Mestre foi caminhando lentamente.  Udayin decidiu ir à frente e informar Suddhodana que seu filho estava a caminho para vê-lo, para que então o rei fosse paciente e não mais se afligisse.

Udayin voou através do ar e, num instante, chegou ao palácio de Suddhodana. Ele encontrou o rei em profundo desespero.

“Meu senhor”, disse ele, “enxugue suas lágrimas. Seu filho logo estará em Kapilavastu”.

“Oh, é você, Udayin!”, exclamou o rei. “Pensei que você, também, tivesse esquecido de transmitir a minha mensagem, e eu tinha desistido da esperança de algum dia ver o meu filho amado. Mas você chegou, finalmente, e alegres são as notícias que você traz. Não chorarei mais; agora esperarei pacientemente o abençoado momento quando estes meus olhos verão novamente o meu filho.”

Ele ordenou que a Udayin fosse servida uma esplêndida refeição.

“Não comerei aqui, meu senhor”, disse Udayin. “Antes de eu tocar qualquer alimento, devo saber se meu mestre foi devidamente servido. Retornarei a ele pelo caminho que eu vim.”

O Rei protestou.

“É meu desejo, Udayin, que você receba seu alimento de mim, todo o dia; e é também meu desejo que meu filho receba seu alimento de mim, a cada dia dessa jornada que ele tem empreendido para me agradar. Coma, e então lhe darei alimento para levar ao Bem-Aventurado.”

Quando Udayin já tinha se alimentado, foi-lhe entregue uma tigela de comidas deliciosas a serem levadas para o filho do rei. Ele jogou tigela no ar; então alçou-se do chão e voou para longe. A tigela caiu aos pés do Buda, e o Buda agradeceu ao seu amigo. Daí em diante, a cada dia, Udayin voava ao palácio do Rei Suddhodana para buscar o alimento do Mestre, e o Mestre ficou satisfeito com o zelo demonstrado por seu discípulo em servi-lo.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

As Relíquias de Bimbisara

Bimbisara agradeceu o Mestre pela valiosa lição que ele ensinou ao seu filho. Então ele disse:

“Bem-Aventurado, tenho um pedido a fazer.”

“Fale”, disse o Buda.

“Quando você se for, oh Bem-Aventurado, serei incapaz de prestrar-lhe honra, serei incapaz de fazer-lhe os costumeiros oferecimentos, e isto muito me entristecerá. Dê-me uma mecha dos seus cabelos, dê-me as aparas das suas unhas; eu as colocarei em um templo no meio do meu palácio. Assim, reterei alguma coisa que seja parte de você e, todos os dias, decorarei o templo com guirlandas (de flores) frescas, e queimarei incensos raros.”

O Bem-Aventurado deu ao rei essas coisas pelas quais solicitara, e disse:

“Pegue meus cabelos e essas aparas; coloque-as num templo, mas em sua mente, coloque o que tenho ensinado a você.”

E como Bimbisara alegremente retornou ao seu palácio, o Mestre partiu para Kapilavastu.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Garça e o Peixe

Quando Bimbisara ouviu que o Mestre estava deixando o Bosque dos Bambús, para ficar fora por algum tempo, ele foi visitá-lo com seu filho, o Príncipe Ajatasatru.

O Mestre olhou para o jovem príncipe; então voltou-se para o rei e disse:

“Ajatasatru pode ser digno do teu amor, oh Rei?”

Novamente ele olhou para o príncipe, e disse-lhe:

“Ouça bem agora, Ajatasatru, e pondere minhas palavras. A astúcia nem sempre tem sucesso; a maldade nem sempre prevalece. Uma história provará isto, a história de algo que aconteceu há muito tempo, algo que eu vi com os meus próprios olhos. Naquela ocasião, eu estava vivendo numa floresta; eu era uma árvore-Deus. Essa árvore cresceu entre dois lagos, um pequeno e pouco atraente, e o outro grande e belo. O pequeno lago estava cheio de peixes; e no grande, flores de lótus cresciam em profusão. Durante um certo verão de calor opressivo, o pequeno lago quase secou completamente; enquanto o grande lago, como era protegido do sol pelas flores de lótus, sempre tinha abundância de água e permaneceu agradavelmente fresco.

Uma garça, passando entre esses dois lagos, viu o peixe e parou. De pé sobre uma perna, ela começou a pensar: ‘Esses peixes seriam uma recompensa legal. Mas esses peixes são rápidos; eles provavelmente escaparão mesmo se eu atacá-los muito avidamente. Devo usar a astúcia! Eles estão tão desconfortáveis neste lago seco! E lá está aquele outro lago, profundo, cheio de água fresca, onde eles poderiam nadar a contento de seus corações!’

Um peixe viu a garça em profundo pensamento, e de aparência tão solene quanto um eremita, e indagou: ‘O que você está fazendo aí, venerável pássaro? Você parece imerso em pensamento’. ‘Estou a meditar, oh peixe’, disse a garça, ‘sim, de fato, estou a meditar. Estou querendo saber como você e seus amigos poderão escapar do seu triste destino’. ‘Nosso triste destino! O que você quer dizer’? ‘Você sofre naquela água rasa, oh infeliz peixe! E a cada dia, como o calor torna-se mais intenso, e a água mais escassa, então o que será de você? Logo o lago estará completamente seco, e todos vocês perecerão! Pobre, pobre peixe! Eu choro por você’.

Todos os peixes tinham ouvido o que a garça dissera. E ficaram cheios de consternação. ‘O que será de nós’, eles gritavam, ‘quando o calor tiver secado o lago’? Eles voltaram-se para a garça: ‘Pássaro, oh venerável pássaro, você pode salvar-nos’? A garça novamente fingia estar perdida em pensamento; finalmente, ela respondeu: ‘Creio que vejo uma saida para a sua miséria’. O peixe ouviu ansiosamente. A garça disse: ‘Há um lago maravilhoso muito próximo daqui. É consideravelmente maior que este no qual você vive, e as flores de lótus que cobrem a superfície protegem a água do rigor do verão. Acredite em minhas palavras, vá viver naquele lago. Posso pinçá-los no meu bico, um de cada vez, e carregá-los para lá. Dessa forma, todos vocês serão salvos’. O peixe ficou feliz. Estavam prestes a aceitar a sugestão da garça quando um caranguejo falou: ‘Nunca ouvi nada tão estranho’, ele exclamou. O peixe indagou-lhe: ‘O que te surpreende tanto nisto’? ‘Nunca’, disse o caranguejo, ‘nunca, desde os primórdios do mundo, eu soube que uma garça tivesse interesse em peixes, a menos que fosse para comê-los’. A garça assumiu um ar de ofendida, e disse: ‘O quê, seu caranguejo malvado! Você suspeita de eu estar tentando enganar esses pobres peixes que se encontram em perigo eminente de morte? Oh peixe, eu apenas desejo salvá-los; procuro o seu bem-estar. Coloque a minha boa fé à prova se você quiser. Escolha um do seu grupo, e eu o carregarei em meu bico para o lago do lótus. Ele o verá; poderá até mesmo nadar em volta algumas vezes; e então eu o pinçarei e o trarei de volta até aqui. Ele lhe dirá o que pensar de mim’. ‘Parece muito justo’, disse o peixe. Para fazer essa viagem ao lago, eles escolheram um dos seus peixes mais velhos que, embora meio cego, era considerado muito sábio. A garça o carregou até o lago, jogou-lhe dentro, e o deixou nadar tanto o quanto desejasse.

O velho peixe ficou encantado, e quando ele retornou aos seus amigos, tinha somente palavras elogiosas para a garça. Os peixes agora estavam convencidos de que eles deviam suas próprias vidas à ela. ‘Pegue-nos’, eles clamaram, ‘pegue-nos e carregue-nos até o lago do lótus’. ‘Como desejarem’, disse a garça, e com o seu bico ela novamente pinçou o velho e meio cego peixe. Mas desta vez ela não o carregou para o lago. Ao invés disso, ela o jogou ao chão e atravessou-o com o seu bico; e então devorou-lhe deixando os ossos aos pés de uma árvore, a árvore da qual eu era o Deus. Feito isto, a garça retornou ao pequeno lago, e disse: ‘Quem virá comigo agora’? Os peixes estavam ansiosos por ver a sua nova casa, e a garça tinha apenas que fazer uma escolha que satisfizesse seu apetite. Até o momento, ela havia comido todos eles, um após o outro. Somente o caranguejo permaneceu. O caranguejo já havia demonstrado que ele desconfiava do pássaro, e agora dizia para si: ‘Duvido muito que os peixes estejam no lago do lótus. Temo que a garça tenha tirado vantagem da sua fé nela. Ainda assim, seria bom deixar esse lago miserável e ir para o outro que é tão maior e mais confortável. A garça deve carregar-me, mas não devo correr risco. E se ela enganou os outros, devo vingá-los’.

O pássaro aproximou-se do caranguejo: ‘É sua vez, agora’, disse a garça. ‘Como você me carregará?’, indagou o caranguejo. ‘Em meu bico, como os outros’, respondeu a garça. “Não, não’, disse o caranguejo; ‘minha carapaça é escorregadia; posso cair do seu bico. Ao invés, deixe-me segurar em seu pescoço com minhas garras; serei cuidadoso para não machucá-la’. A garça concordou. Ela parou aos pés da árvore. ‘O que você está fazendo?’, indagou o caranguejo. ‘Estamos apenas no meio do caminho. Você está cansada? No entanto, a distância não é grande entre os dois lagos!’ A garça ficou aflita por uma resposta. Além disso, o caranguejo estava começando a apertar firmemente o seu pescoço. ‘E o que temos aqui!’, exclamou o caranguejo. ‘Essa pilha de ossos de peixes ao pé da árvore é a evidência da sua traição. Mas você não me enganará como enganou aos outros. Vou matá-la, se devo morrer na tentativa’. O caranguejo apertou suas garras. A garça ficou em grande dor; com lágrimas nos olhos, ela clamou: ‘Querido caranguejo, não me machuque. Não vou comê-lo. Carregarei você até o lago’. ‘Então vá’, disse o caranguejo. A garça caminhou até à beira do lago e estendeu seu pescoço sobre a água. O caranguejo tinha apenas que pular no lago. Mas ao invés disso, ele apertou suas garras, e tão poderosas eram que o pescoço da garça foi cortado. E a árvore-Deus não poderia deixar de exclamar: ‘Bem feito, caranguejo’!”

O Mestre acrescentou: “A astúcia nem sempre tem sucesso. A maldade nem sempre prevalece. Mais cedo ou mais tarde a garça traiçoeira encontra um caranguejo. Sempre lembre disto, Príncipe Ajatasatru!”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Os Mensageiros de Suddhodana

O rei ficou cansado de esperar pelo seu retorno. A cada dia, o desejo de ver o seu filho tornava-se mais intenso, e ele enviou um outro mensageiro ao Bosque dos Bambús. Mas, pelo retorno desse homem, ele também esperou em vão. Nove vezes ele enviou mensageiros ao Bem-Aventurado, e nove vezes os mensageiros, ao ouvirem as palavras sagradas, decidiram ficar e tornarem-se monges.

Suddhodana finalmente convocou Udayin.

“Udayin”, disse ele, “como você sabe, dos nove mensageiros enviados para o Bosque dos Bambús, nenhum retornou, nenhum enviou-me sequer uma palavra de como a minha mensagem foi recebida. Eu não sei se eles falaram ao meu filho, se eles ao menos viram-no. Isto me aflige e entristece, Udayin. Sou um homem velho. A morte está à espreita por mim. Posso ainda estar vivo amanhã, mas seria temerário contar com os dias que se seguirão. E antes que eu morra, Udayin, quero ver meu filho. Você foi o seu melhor amigo; vá até ele agora. Não posso imaginar alguém que pudesse ser mais bem-vindo (por ele). Diga-lhe da minha aflição; diga-lhe do meu desejo, e talvez ele não fique indiferente!”

“Eu irei, meu senhor”, respondeu Udayin

Ele foi. Muito antes de ter chegado ao Bosque dos Bambús, ele havia condicionado a sua mente para tornar-se um monge, mas as palavras do Rei Suddhodana haviam lhe afetado profundamente, e ele pensou: “Direi ao Mestre sobre a aflição do seu pai. Ele se compadecerá e irá a ele.”

O Mestre ficou feliz ao ver Udayin tornar-se um de seus discípulos.

O inverno estava quase no fim. Era um tempo favorável para viajar e, certo dia, Udayin disse ao Buda:

“As árvores estão brotando; logo estarão em folhas. Veja os raios brilhantes do sol reluzindo através dos seus galhos. Mestre, este tempo é bom para viajar. Não está mais frio, e nem muito quente; e a terra veste-se num lindo manto verde. Não teremos problemas para encontrar alimento no caminho. Mestre, este é um tempo bom para viajar.”

O Mestre sorriu para Udayin e respondeu:

“Por que você me instiga a viajar, Udayin?”

“Seu pai, o Rei, ficaria feliz em vê-lo, Mestre.”

O Buda considerou por um momento, e então disse: “Irei à Kapilavastu; irei e verei meu pai.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

« Entradas mais antigas

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Join 1.112 other followers