A Mendicância do Buda

O Buda era equitativo em sua mendicância e não favorecia ricos ou pobres. Seu discípulo Ananda seguia o seu exemplo e praticava a compaixão igualitária. “Ananda já sabia que o Tathagata, o Honrado pelo Mundo, havia admoestado Subhuti e o Grande Kashyapa chamando-lhes de Arhats, cujos corações não eram equáveis.”

Ele (Ananda) decidiu que ao longo de sua ronda de mendicância ele não prestaria atenção se seus doadores eram limpos ou sujos, ‘ksatriyas’ de reputação ou humildes ‘Tangcandalas’. Ele praticaria compaixão igualitária,  ao invés de procurar remediados e humildes, e daquela forma permitir que todos os seres viventes pudessem obter méritos imensuráveis.

A imparcialidade do Buda na mendicância é indicada pela rigorosa sequencia de porta-a-porta que ele seguia. Quando ele terminava a mendicância em uma casa, ele ia mendigar em outra ao lado daquela, e assim por diante para a próxima.

Após terminar a sua mendicância sequencial, ele retornava para o Parque de Jeta no Jardim do Benfeitor de Órfãos e Solitários, onde ele se alimentava, retirava o seu robe e a tigela, e lavava os seus pés. O Buda percorria os caminhos com os pés descalços, e assim, após retornar e alimentar-se, ele lavava seus pés.

Sutra Diamante – Capítulo 1 – As Razões para a Assembleia do Dharma.

Original

O Encontro de Sudatta com o Lugar Sagrado

E ele retornou à sua casa para iniciar uma extensa procura por uma área adequada, que terminou quando ele viu o jardim de flores do Príncipe Jeta. Era perfeito em cada aspecto, proporcionando uma boa vista, e ainda conveniente para a própria cidade. O terreno em si era carregado de uma energia eficaz. Tudo que se encontrava sobre ele era primaz, exceto que ele pertencia ao Príncipe. Imaginando que ele jamais poderia ser capaz de comprá-lo, Sudatta enviou um mensageiro para fazer uma oferta. “Ele tem tanto dinheiro que pensa que pode comprar meu jardim de flores!”, riu o príncipe de espanto. “Muito bem”, disse em tom de brincadeira, “se ele cobri-lo completamente com moedas de ouro, o venderei para ele! Esse é o meu preço”. O Príncipe Jeta considerou que o Velho Sudatta possivelmente não pudesse dispor de um terreno que custasse a sua área em ouro. Ele jamais imaginara que o dinheiro de Sudatta e o seu desejo de ouvir o dharma fossem o bastante. O Velho pegou as moedas de ouro dos depósitos da família e cobriu o Jardim do Príncipe Jeta.

O Príncipe Jeta sentiu-se ultrajado. “Pegue de volta as suas moedas! Não tenho intenção de vendê-lo. Foi apenas uma brincadeira. Nunca me ocorreu que você realmente estaria disposto a pagar tal preço. Meu jardim não pode ser comprado por quantia alguma.”

O Velho calmamente respondeu: “Agora você diz que não quer vender? Você é herdeiro do trono, e a palavra de um Imperador deve ser confiável. Um Rei não mente ou fala imprudentemente. É melhor você vender, porque se as pessoas não puderem confiar em suas palavras agora, por que acreditariam em você após a sua subida ao trono?”

O Príncipe reconheceu o seu predicamento. “Muito bem”, disse ele:

Uma vez que você usou moedas de ouro para cobri-lo, você comprou o terreno. Mas você não cobriu as árvores. Assim, o jardim é o seu oferecimento ao Buda, e as árvores são meu oferecimento. Você tem algo mais a dizer?”

O Velho considerou isto e percebeu que havia um princípio. Era verdade que as copas das árvores não haviam sido cobertas com ouro, e se ele se recusasse a consentir , o Príncipe poderia cortá-las e então o jardim ficaria muito menos belo. “Certo, nós o dividiremos”.

Por isso ele é chamado “Parque de Jeta no Jardim do Benfeitor dos Órfãos e Solitários”. O nome do Príncipe é mencionado primeiro, uma vez que representava a realeza, e o Velho Sudatta, conhecido como Anathapindika (ou Anathapindada), “O Benfeitor dos Órfãos e Solitários”, que ostentava uma posição ministerial na corte, é mencionado em segundo lugar.

Sutra Diamante – Capítulo 1 – As Razões para a Assembleia do Dharma.

Original

O Tempo e o Lugar

Naquela ocasião refere-se ao tempo quando o Buda encontrava-se hospedado em Sravasti. Sravasti, o nome da cidade capital que abrigava o Rei Prasenajit, traduz-se como “Virtude Florescente”. “Florescente” refere-se aos Cinco Desejos: formas, sons, fragrâncias, sabores e objetos tangíveis; e também à riqueza que abundava no país. “Virtude” refere-se à conduta dos cidadãos, os quais eram bem educados e livres de vergonhas.

O Parque de Jeta pertencia ao filho do Rei Prasenajit, o Príncipe Jeta, cujo nome, “vencedor (Victor) da guerra”, foi-lhe dado em comemoração à vitória do Rei Prasenajit numa guerra com um país vizinho que transcorreu no dia do nascimento do seu filho.

Parque de Jeta

Vista Geral do Parque de Jeta

O Benfeitor dos Órfãos e Solitários refere-se a um filantropo Indiano da época que era muito parecido com o Rei Wen da Dinastia Chou na China. O principal objetivo do Rei Wen era beneficiar viúvos, viúvas, órfãos e solitários, significando idosos, casais sem filhos, etc. O seu reinado foi benevolente e humano, e objetivava unicamente o bem do país. O benfeitor mencionado aqui no sutra foi um idoso chamado Sudatta, “bom benfeitor”, um dos grandes ministros do Rei Prasenajit.

O Jardim de flores pertencia ao Príncipe Jeta até que Sudatta o adquiriu pelo preço exorbitante de uma polegada quadrada de ouro para cada polegada quadrada de chão. O Velho Sudatta fez a compra após o seu convite ao Buda para vir a Sravasti pregar o dharma. A seguir, os eventos que resultaram nessa compra do jardim.

Sutra Diamante – Capítulo 1 – As Razões para a Assembleia do Dharma.

Original

O Prefácio do Sutra Diamante

Assim eu ouvi.

Certo dia,  o Buda estava hospedado no Parque de Jeta, no Jardim do Benfeitor dos Órfãos e Solitários, juntamente com uma congregação de grandes monges, mil duzentos e cinquenta ao todo.

Naquela ocasião, na hora do desjejum, o Honrado pelo Mundo vestiu o seu robe, pegou sua tigela de donativos, e adentrou a grande cidade de Sravasti para esmolar por comida. Após encerrar a sua mendicância rotineira dentro da cidade, ele retornou, alimentou-se, retirou o seu robe e a sua tigela, lavou seus pés, arrumou seu assento, e sentou-se.

Comentário:

Assim eu ouvi. Essas palavras constituem o primeiro dos Seis Requisitos. É essencial que todos que prelecionam ou lêm sutras estejam familiarizados com os Seis Requisitos, os quais são: fé, a audição, o tempo, o hospedeiro (o anfitrião), o lugar e a audiência.

  1. Assim é o requisito da fé,
  2. Eu ouvi é o requisito da audição,
  3. Naquela ocasião é o requisito do tempo,
  4. O Buda é o requisito do hospedeiro,
  5. Em Sravasti, no Parque de Jeta no Jardim do Benfeitor dos Órfãos e Solitários é o requisito do lugar,
  6. Juntamente com uma congregação de grandes monges, mil duzentos e cinquenta ao todo é o requisito da audiência.

Os seis requisitos provam que um sutra foi pregado pelo Buda. Uma vez que esses requisitos iniciam cada sutra, eles são chamados “Prefácio Comum”. O texto que imediatamente segue-lhes varia de acordo com o sutra, e assim é chamado “Prefácio Específico”. Neste sutra, o Prefácio Específico é:

“Naquela ocasião, na hora do desjejum, o Honrado pelo Mundo vestiu o seu robe, pegou sua tigela de donativos, e adentrou a grande cidade de Sravasti para esmolar por comida. Após encerrar a sua mendicância rotineira dentro da cidade, ele retornou, alimentou-se, retirou o seu robe e a sua tigela, lavou seus pés, arrumou seu assento, e sentou-se.”

O Prefácio Comum também é chamado tanto de “Prólogo” como de “Pós-Escrito”. Ao se prelecionar sutras, pode-se discutir essa seção tanto como uma introdução ao sutra, mas também como um pós-escrito apendido numa data posterior.

“Pode um prefácio realmente ser chamado de um Prólogo ou um Pós-Escrito?”, você poderia indagar.

Não há nada fixo sobre isso. O que quer que seja fixo (imutável) não é Budadharma. O Sutra Diamante torna claro o princípío dos dharmas não imutáveis. Quando algo é fixado, o apego resultante causa uma obstrução que, por sua vez, conduz à aflição. Quando não há apego, o vazio é sem aflição. Quando tudo é vazio, a quê se poderia estar apegado?  O que, então, não pode ser descartado? Quando se está completamente vazio de si, que aflição poderia haver? A aflição surge quando o ponto de vista de alguém não está vazio de si. As coisas não são assumidas como completamente destroçadas e descartadas. Por conseguinte…

Onde quer que você vá, você está preso por espinhos.

Onde quer que você vá, você colide com paredes.

Em todo o lugar que você vá, você caminha entre paredes ou está armadilhado num espinheiro, e é doloroso. Você sente dor porque você não descartou o seu corpo. Se você absolutamente não possui um eu, nem outros, nem seres viventes, nem vida – nada afinal – que dor pode haver? Quem tem dor? Quando não há sequer uma pessoa que sinta dor, que aflição pode haver? De onde a aflição viria? Isto é fácil de falar, mas difícil de fazer.

Os seis requisitos são chamados de Pós-Escrito porque eles não eram parte do sutra original. O Buda não disse “Assim eu ouvi…”. Aquele texto foi adicionado posteriormente pelo Venerável Ananda quando a divisão dos sutras foi compilada. O Pós-Escrito também é chamado Prólogo. Portanto, os seis requisitos podem ser chamados de Prefácio, Prólogo e Pós-Escrito.

O Buda instruiu que todos os sutras que ele pregou deveriam começar com as quatro palavras “Assim eu ouvi…”. Aqueles que estudam os sutras Budistas devem saber a história dessas quatro palavras.

Sutra Diamante – Capítulo 1 – As Razões para a Assembleia do Dharma.

Original

Os Lugares Sagrados de Pregação do Prajna pelo Buda

Uma investigação do dharma deve levar em consideração os locais nos quais o Buda pregou o dharma e o número de fiéis em assembleia que receberam os ensinamentos. O ensinamento do prajna foi pregado em Quatro Lugares e em Dezesseis Assembleias:

  1. Sete assembleias foram realizadas no Pico Vulture (Monte Gridhrakuta), também chamada Montanha Vulture Eficaz, próxima à cidade do Palácio dos Reis (em Rajagriha, onde o Sutra de Lótus foi pregado).
  2. Sete assembleias foram realizadas na cidade de Sravasti no Parque de Jeta no Jardim do Benfeitor dos Órfãos e Solitários. Lá é onde o Sutra Vajra foi pregado.
  3. Uma assembleia foi realizada no Palácio do Tesouro de Jóias Preciosas (Mani Jewel) da Bem-Aventurança do Céu das Transformações dos Outros.
  4. Uma assembleia foi realizada ao lado do Lago da Garça Branca Real no Bosque dos Bambús, próximo ao Palácio dos Reis.
Parque de Jeta

Vista Geral do Parque de Jeta

O Sutra Diamante (Vajra Prajna Paramita) foi pregado na terceira assembleia realizada no segundo local, o Parque de Jeta. Assim o sutra começa: “Assim eu ouvi na ocasião em que o Buda estava hospedado em Sravasti, no Parque de Jeta, no Jardim do Benfeitor dos Órfãos e Solitários.”

Dos Três Tipos de Prajna – o literário, o contemplativo e o da marca real – o prajna literário surge do estudo dos sutras, mas uma verdadeira compreensão da literatura surge somente através do prajna contemplativo. A sabedoria contemplativa, plenamente desenvolvida, penetra o objetivo final; ou seja, o prajna da marca real. Se o prajna não se manifesta, é simplesmente uma indicação de que a sabedoria básica inerente a todas as pessoas não atingiu a fruição. A sabedoria que representa o prajna da marca real surge somente quando nutrida pelas águas do prajna literário e do contemplativo.

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Prasenajit e Ajatasatru

Embora o Buda houvesse purificado o espírito de Ajatasatru, houve ocasiões em que o rei ainda dava lugar à ira. Certo dia, por causa de uma desavença entre um homem de Rajagriha e um outro de Cravasti, ele declarou guerra contra o Rei Prasenajit.

Ele recrutou um vasto exército. Havia infantaria e cavalaria; havia alguns montados em carros de combate, outros colocados em blindagens carregadas por elefantes, e espadas e lanças brilhavam ao sol enquanto marchavam para a batalha.

O Rei Prasenajit também reuniu suas tropas. Ele também trazia carros de combate, cavalos e elefantes, e avançou para encontrar Ajatasatru.

Foi uma batalha terrível. Durou quatro dias. No primeiro dia, Prasenajit perdeu seus elefantes; no segundo dia ele perdeu seus cavalos; no terceiro, seus carros de combate foram destruídos; e no quarto dia, seus soldados de infantaria foram mortos ou feitos prisioneiros; e o próprio Prasenajit, derrotado e em pânico, fugiu na única carruagem salva do desastre, e escapou para Cravasti.

Lá, num pequeno e sombrio salão, ele atirou-se num divã. Ficou em silêncio, preso aos seus melancólicos pensamentos. Não se mexia, parecia estar morto, exceto pelas lágrimas que escorriam pelo seu rosto.

Um homem entrou; era o mercador Anathapindika.

“Meu senhor”, disse ele, “viva longamente, e a maré da vitória poderá voltar!”

“Meus soldados estão mortos”, o rei lamentou, “todos os meus soldados estão mortos! Meus soldados! Meus soldados!”

“Não se aflija, oh Rei! Levante um outro exército.”

“Eu perdi a minha fortuna quando perdi meu exército.”

“Rei”, disse Anathapindika, “darei a você o ouro de que necessitar, e você será vitorioso.”

Prasenajit levantou-se, ficou de pé.

“Você me salvou, Anathapindika!”, ele exclamou. “Estou grato!”.

Com o ouro de Anathapindika, Prasenajit levantou uma formidável legião. E marchou contra Ajatasatru.

Quanto os dois exércitos se defrontaram, o retinir das armas aterrorizou os próprios Deuses. Prasenajit usou uma estratégia de batalha que a ele foi ensinada por homens de uma terra distante. Ele atacou rapidamente; Ajatasatru não tinha defesa. Afinal, foi derrotado e capturado.

“Mate-me!”, ele implorou a Prasenajit.

“Pouparei sua vida”, disse Prasenajit. “Eu o levarei ao Mestre Bem-Aventurado, e ele decidirá o seu destino.”

O Mestre houvera chegado recentemente ao Parque de Jeta. Prasenajit disse-lhe:

“Veja só, oh Bem-Aventurado! O Rei Ajatasatru é meu prisioneiro. Ele odeia-me, embora eu não nutra qualquer má vontade contra ele. Ele atacou-me, por algum motivo banal, e derrotou-me uma primeira vez, mas agora ele está à minha mercê. Não desejo matá-lo, oh Bem-Aventurado. Por causa de seu pai, Bimbisara, que foi meu amigo, eu gostaria de libertá-lo.”

“Então liberte-o!”, disse o Mestre. “A vitória gera o ódio; a derrota gera o sofrimento. Aqueles que são sábios renunciarão tanto à vitória quanto à derrota. Insulto nasce do insulto, e a ira da ira. Aqueles que são sábios renunciarão tanto à vitória quanto à derrota. Todo o assassino é derrubado por um assassino; todo o conquistador é derrubado por um conquistador. Aqueles que são sábios renunciarão tanto à vitória quanto à derrota.”

Na presença do Mestre, Ajatasatru prometeu ser um fiel amigo de Prasenajit.

“E”, ele acrescentou, “sejamos mais que amigos. Eu tenho um filho, como você sabe, e você tem uma filha, Kshema, que ainda é solteira. Você daria a mão de sua filha ao meu filho?”

“Assim seja”, disse Prasenajit. “E que esse feliz casamento seja o penhor da nossa feliz amizade.”

O Mestre aprovou. Os dois reis para sempre viveram em paz um com o outro, e Ajatasatru (ou Prasenajit? – N.T.) tornou-se conhecido pela sua gentileza.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Escolha de Suprabha

Em meio àquelas que buscavam instruções do Bem-Aventurado ao mesmo tempo que essa jovem escrava, estava Suprabha, a filha de um proeminente cidadão de Cravasti. Suprabha era muito bela. Era vê-la e apaixonar-se por ela. Ela era cortejada por todos os jovens distintos da cidade. Isto fez com que seu pai se preocupasse muito. “A quem a darei em casamento?”, ele indagava-se repetidamente; “aqueles a quem recusar tornar-se-ão meus inimigos implacáveis.”

E por horas a fio, ele permanecia imerso em pensamentos.

Certo dia, Suprabha disse-lhe:

“Você parece estar sobrecarregado, querido pai. Qual é a razão?”

“Filha”, ele respondeu, “unicamente você é a causa da minha ansiedade. Há tantos em Cravasti que desejam casar-se com você!”

“Você está com medo de fazer uma escolha entre meus pretendentes?”, disse Suprabha. “Pobres homens! Se eles soubessem meus pensamentos! Não fique ansioso, pai! Diga-lhes para se reunirem e, de acordo com o antigo costume, irei em meio a eles, e eu mesma escolherei um marido dentre eles.”

“Farei como você deseja, filha.”

O pai de Suprabha foi ao Rei Prasenajit e recebeu permissão para ter um arauto a proclamar através da cidade:

“Daqui há sete dias, será realizada uma reunião de todos os homens jovens que queiram desposar Suprabha. A própria donzela escolherá um esposo dentre os que se apresentarem.”

No sétimo dia, uma multidão de pretendentes reuniu-se no majestoso jardim pertencente ao pai de Suprabha. Ela pareceu, montada em uma carruagem. Ela estava segurando um estandarte amarelo no qual estava pintada a imagem do Bem-Aventurado. Ela estava cantando os seus louvores. Todos eles olharam para ela com espanto, e se perguntaram: “O que ela nos dirá?” Ela finalmente dirigiu-se a um jovem homem.

“Não posso amar a nenhum de vocês”, disse ela, “mas não pensem que eu lhes desprezo. O amor não é o meu objetivo na vida; eu quero refugiar-me com o Buda. Irei ao parque onde ele reside, e ele me instruirá na lei.”

Tristemente, os jovens se retiraram, e Suprabha foi para o Parque de Jeta. Ela ouviu o Bem-Aventurado falar; foi admitida na comunidade, e tornou-se a mais devota Monja.

Certo dia, quando Suprabha estava deixando os jardins sagrados, ela foi reconhecida por um dos seus ex-pretendentes que passava por ali com vários amigos.

“Devemos resgatar essa mulher”, disse ele. “Eu a amei; eu ainda a amo. Ela será minha.”

Seus amigos concordaram em ajudar-lhe. Antes que Suprabha se conscientizasse, ela foi cercada, e subitamente eles decidiram raptá-la. Mas quando eles estavam prestes a agarrá-la, ela dirigiu o seu pensamento para o Buda e, imediatamente, ela levantou-se no ar. Uma multidão se juntou; Suprabha permaneceu acima deles por um tempo, e então, voando com a graça e majestade de um cisne, retornou para a sua morada sagrada.

E seus clamores seguiram-na:

“Oh Santo, você fez manifestar o poder da fé; Oh Santo, você tornou manifesto o poder do Buda. Seria injusto condenar-lhe aos prazeres terrenos do amor, oh Santo, oh Santo.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Libertação da Jovem Escrava

Ao final  de três meses, o Mestre desceu à terra e pegou a estrada para Cravasti. Quando ele estava se aproximando do Parque de Jeta, encontrou uma jovem menina. Ela era empregada de um rico habitante da cidade que estava trabalhando nos campos naquele dia. Ela estava levando-lhe uma tigela de arroz para a sua refeição. Ao se deparar com o Buda, ela sentiu-se estranhamente feliz.

“É o Mestre, o Bem-Aventurado”, ela pensou. “Meus olhos contemplam-lhe; minhas mãos quase podem tocá-lo, ele está tão próximo. Oh, que santa felicidade seria dar-lhe donativos! Mas não tenho nada que seja meu.”

Ela suspirou. Seu olhar caiu sobre a tigela de arroz.

“Este arroz… A refeição do meu mestre… Nenhum mestre pode rebaixar à escravidão alguém que já é um escravo. Meu mestre pode me bater, mas o que importa! Ele poderia colocar-me na prisão, mas eu suportaria isso tranquilamente. Darei o arroz para o Bem-Aventurado.”

Ela ofereceu a tigela de arroz ao Buda. Ele a aceitou e continuou em seu caminho para o Parque de Jeta. A jovem menina, com os olhos reluzentes de felicidade, foi à procura do seu mestre.

“Onde está meu arroz?”, ele indagou, tão logo a viu.

“Dei-lhe ao Buda como uma oferenda. Puna-me se desejar, não lamentarei; estou tão feliz pelo que fiz.”

Ele não a puniu. Ele curvou a sua cabeça e disse:

“Não, eu não a punirei. Estou dormindo e seus olhos estão despertos. Vá, você não é mais escrava.”

A jovem menina fez uma profunda reverência.

“Com sua permissão, então”, disse ela, “irei para o Parque de Jeta, e solicitarei ao Bem-Aventurado instruir-me na lei.”

“Vá”, disse o homem.

Ela foi para o Parque de Jeta; sentou-se aos pés do Buda, e tornou-se uma das mais santas mulheres na comunidade.

Ananda Kuti

Ananda Kuti (*) no Parque de Jeta. Click na imagem para site de origem.

(*) É a morada temporária de um monge budista ou principiante, designando a habitação pequena e rudimentar que cada monge construía para si próprio quando se hospedava em locais por um curto espaço de tempo. Fonte: Dhamma Dana: Pali English Glossary

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Prodígio de Kala

De Vaisali, o Mestre seguiu para Cravasti, para o Parque de Jeta. Certo dia, o Rei Prasenajit veio vê-lo. “Meu Senhoor”, disse o rei, “seis eremitas chegaram recentemente em Cravasti. Eles não acreditam na sua lei. Eles sustentam que o seu conhecimento não se iguala ao deles, e eles tentaram me surpreender realizando numerosos prodígios. Creio que suas declarações não são verdadeiras, mas seria bom, meu Senhor, que você fosse frustrar a sua audácia. A salvação do mundo depende da sua glória. Então, apareça diante desses fraudadores e impostores, e cale-os.”

“Rei”, respondeu o Mestre, “ordene que um grande salão seja construído próximo à cidade. Conclua-o em sete dias. Seguirei para lá. Providencie para que esses eremitas maldosos estejam presentes, e então você verá quem realiza os maiores prodígios, eles ou Eu.”

Prasenajit ordenou que o salão fosse construído.

Enquanto se aguardava o dia do julgamento, os eremitas mentirosos procuraram iludir os fiéis seguidores do Mestre, e aqueles que se recusavam a ouvir as suas más palavras incorriam na sua implacável inimizade. Agora, o Mestre não tinha nenhum amigo mais verdadeiro em Cravasti do que o Príncipe Kala, um irmão de Prasenajit. Kala havia demonstrado o seu desprezo pelos eremitas, e eles decidiram vingar-se.

Kala era um homem muito bonito. Certo dia, quando estava caminhando pelos jardins reias, ele encontrou uma das esposas de Prasenajit, e ela alegremente atirou-lhe uma guirlanda de flores. Os eremitas ouviram sobre esse incidente, e disseram ao rei que seu irmão havia tentado seduzir uma de suas esposas. O rei ficou furioso, e sem dar a Kala uma chance para se justificar, cortou-lhe as mãos e os pés.

O pobre Kala sofreu amargamente. Seus amigos ficavam em torno do seu leito, chorando. Aconteceu de um dos eremitas maldodos passar por ali.

“Venha, mostre o seu poder”, disseram-lhe. “Você sabe que Kala é inocente. Torne-o bom novamente!”

“Ele acredita no filho dos Shakyas”, respondeu o eremita. “Cabe ao filho dos Shakyas torná-lo bom novamente.”

Então Kala começou a cantar:

“Como pode o Mestre dos mundos falhar em ver a minha miséria? Veneremos o Senhor que não mais conhece o desejo; adoremos o Bem-Aventurado que tem piedade de todas as criaturas.”

Ananda subitamente apareceu diante dele.

“Kala”, disse ele, “o Mestre ensinou-me as palavras que curarão as suas feridas.”

Ele recitou alguns poucos versos, e o príncipe imediatamente recuperou os seus membros.

“Doravante”, ele exclamou o príncipe, “servirei ao Mestre! Por mais humildes (degradantes) que sejam as tarefas que ele me atribua, as realizarei com alegria, para satisfazê-lo.”

E seguiu com Ananda para Jetavana, o Parque de Jeta. O Mestre o recebeu carinhosamente, e admitiu-lhe na comunidade.

Parque de Jeta

Vista Geral do Parque de Jeta. Click na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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