O Encontro de Sudatta com o Lugar Sagrado

E ele retornou à sua casa para iniciar uma extensa procura por uma área adequada, que terminou quando ele viu o jardim de flores do Príncipe Jeta. Era perfeito em cada aspecto, proporcionando uma boa vista, e ainda conveniente para a própria cidade. O terreno em si era carregado de uma energia eficaz. Tudo que se encontrava sobre ele era primaz, exceto que ele pertencia ao Príncipe. Imaginando que ele jamais poderia ser capaz de comprá-lo, Sudatta enviou um mensageiro para fazer uma oferta. “Ele tem tanto dinheiro que pensa que pode comprar meu jardim de flores!”, riu o príncipe de espanto. “Muito bem”, disse em tom de brincadeira, “se ele cobri-lo completamente com moedas de ouro, o venderei para ele! Esse é o meu preço”. O Príncipe Jeta considerou que o Velho Sudatta possivelmente não pudesse dispor de um terreno que custasse a sua área em ouro. Ele jamais imaginara que o dinheiro de Sudatta e o seu desejo de ouvir o dharma fossem o bastante. O Velho pegou as moedas de ouro dos depósitos da família e cobriu o Jardim do Príncipe Jeta.

O Príncipe Jeta sentiu-se ultrajado. “Pegue de volta as suas moedas! Não tenho intenção de vendê-lo. Foi apenas uma brincadeira. Nunca me ocorreu que você realmente estaria disposto a pagar tal preço. Meu jardim não pode ser comprado por quantia alguma.”

O Velho calmamente respondeu: “Agora você diz que não quer vender? Você é herdeiro do trono, e a palavra de um Imperador deve ser confiável. Um Rei não mente ou fala imprudentemente. É melhor você vender, porque se as pessoas não puderem confiar em suas palavras agora, por que acreditariam em você após a sua subida ao trono?”

O Príncipe reconheceu o seu predicamento. “Muito bem”, disse ele:

Uma vez que você usou moedas de ouro para cobri-lo, você comprou o terreno. Mas você não cobriu as árvores. Assim, o jardim é o seu oferecimento ao Buda, e as árvores são meu oferecimento. Você tem algo mais a dizer?”

O Velho considerou isto e percebeu que havia um princípio. Era verdade que as copas das árvores não haviam sido cobertas com ouro, e se ele se recusasse a consentir , o Príncipe poderia cortá-las e então o jardim ficaria muito menos belo. “Certo, nós o dividiremos”.

Por isso ele é chamado “Parque de Jeta no Jardim do Benfeitor dos Órfãos e Solitários”. O nome do Príncipe é mencionado primeiro, uma vez que representava a realeza, e o Velho Sudatta, conhecido como Anathapindika (ou Anathapindada), “O Benfeitor dos Órfãos e Solitários”, que ostentava uma posição ministerial na corte, é mencionado em segundo lugar.

Sutra Diamante – Capítulo 1 – As Razões para a Assembleia do Dharma.

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O Encontro de Sudatta com o Buda

Quando ele chegou ao Vihara (Monastério), ele não sabia o procedimento correto para saudar o Buda. Novamente, a sua profunda sinceridade evocou uma resposta, e quatro deuses transformaram-se em monges, circundaram o Buda três vezes pelo lado direito, postaram-se diante do Honrado pelo Mundo, curvaram-se três vezes, ajoelharam-se, juntaram as palmas das mãos, e fizeram suas perguntas. O Velho Sudatta seguiu o seu exemplo, e então ajoelhou diante do Buda que afagou a sua cabeça e perguntou:

“Por que você veio?”

Sudata simplesmente disse: “Buda, você é tão generoso. Jamais havia visto um Buda antes, e agora não quero deixá-lo. Você virá e viverá próximo à minha casa?”

O Buda assentiu dizendo: “Certo, mas você tem um lugar? Os mil, duzentos e cinquenta discípulos que constantemente me acompanham necessitarão ser alimentados e abrigados. Você tem acomodações amplas o suficiente para todos nós?”

“Encontrarei um lugar”, prometeu o Velho.

Sutra Diamante – Capítulo 1 – As Razões para a Assembleia do Dharma.

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A Luz do Buda

Tudo começou quando Sudatta foi à Rajagriha a negócios e hospedou-se com um amigo chamado Shan Tan Nwo. Certa noite, durante a sua visita à casa de Shan Tan Nwo, seu amigo levantou-se no meio da noite e começou a enfeitar a sua casa. Ele trouxe arranjos de enfeites e os arrumou com perfeição, trabalhando noite a dentro até que sua casa ficasse formosa. O Velho Sudata ouviu o barullho e levantou-se para ver o que estava acontecendo. “Amigo, qual é a grande ocasião para tornar a sua casa tão esplêndida? Você convidou o Rei? Alguém em sua família está para casar? Por que todos esses preparativos?”

“Não é o Rei que espero, ou um casamento. Eu convidei o Buda para vir à minha casa para receber um oferecimento vegetariano”, respondeu seu amigo.

Sudatta nunca ouvira sobre o Buda antes, e quando o seu amigo falou o nome, todos os pelos em seu corpo ficaram de pé. “Estranho”, ele pensou, “Quem é o Buda?”, ele se perguntou.

O Velho Shan Tan Nwo disse: “O Buda é o filho do Rei Suddhodana. Ele abdicou à sua herança do trono com o objetivo de deixar a vida familiar e praticar a Via. Ele perseverou por seis anos  nos Himalayas, e depois, sob a árvore Bodhi, ele viu uma estrela certa noite, iluminou-se para a Via, e tornou-se um Buda”.

O fundamento das raízes do bem do Velho Sudatta o levou a imediatamente manifestar sua vontade de ver o Buda. Sua profunda sinceridade comoveu tanto o Buda Shakyamuni, que estava hospedado no Bosque dos Bambús (a cerca de sessenta ou setenta milhas a sudeste de Rajagriha), que ele emitiu uma luz para guiar Sudatta. Ao ver a luz, Sudatta pensou que fosse o alvorecer, e apressadamente vestiu-se e saiu. Na verdade, era meio da noite e os portões da cidade ainda não haviam sido abertos, mas quando o velho chegou às muralhas da cidade, os portões, devido à penetração espiritual do Buda, abriram-se e ele passou através deles, prosseguindo em seu caminho para ver o Buda. Sudatta seguiu as indicações que lhes foram dadas pelo seu amigo, e foi guiado pela Luz do Buda.

Sutra Diamante – Capítulo 1 – As Razões para a Assembleia do Dharma.

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O Tempo e o Lugar

Naquela ocasião refere-se ao tempo quando o Buda encontrava-se hospedado em Sravasti. Sravasti, o nome da cidade capital que abrigava o Rei Prasenajit, traduz-se como “Virtude Florescente”. “Florescente” refere-se aos Cinco Desejos: formas, sons, fragrâncias, sabores e objetos tangíveis; e também à riqueza que abundava no país. “Virtude” refere-se à conduta dos cidadãos, os quais eram bem educados e livres de vergonhas.

O Parque de Jeta pertencia ao filho do Rei Prasenajit, o Príncipe Jeta, cujo nome, “vencedor (Victor) da guerra”, foi-lhe dado em comemoração à vitória do Rei Prasenajit numa guerra com um país vizinho que transcorreu no dia do nascimento do seu filho.

Parque de Jeta

Vista Geral do Parque de Jeta

O Benfeitor dos Órfãos e Solitários refere-se a um filantropo Indiano da época que era muito parecido com o Rei Wen da Dinastia Chou na China. O principal objetivo do Rei Wen era beneficiar viúvos, viúvas, órfãos e solitários, significando idosos, casais sem filhos, etc. O seu reinado foi benevolente e humano, e objetivava unicamente o bem do país. O benfeitor mencionado aqui no sutra foi um idoso chamado Sudatta, “bom benfeitor”, um dos grandes ministros do Rei Prasenajit.

O Jardim de flores pertencia ao Príncipe Jeta até que Sudatta o adquiriu pelo preço exorbitante de uma polegada quadrada de ouro para cada polegada quadrada de chão. O Velho Sudatta fez a compra após o seu convite ao Buda para vir a Sravasti pregar o dharma. A seguir, os eventos que resultaram nessa compra do jardim.

Sutra Diamante – Capítulo 1 – As Razões para a Assembleia do Dharma.

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A Escolha de Suprabha

Em meio àquelas que buscavam instruções do Bem-Aventurado ao mesmo tempo que essa jovem escrava, estava Suprabha, a filha de um proeminente cidadão de Cravasti. Suprabha era muito bela. Era vê-la e apaixonar-se por ela. Ela era cortejada por todos os jovens distintos da cidade. Isto fez com que seu pai se preocupasse muito. “A quem a darei em casamento?”, ele indagava-se repetidamente; “aqueles a quem recusar tornar-se-ão meus inimigos implacáveis.”

E por horas a fio, ele permanecia imerso em pensamentos.

Certo dia, Suprabha disse-lhe:

“Você parece estar sobrecarregado, querido pai. Qual é a razão?”

“Filha”, ele respondeu, “unicamente você é a causa da minha ansiedade. Há tantos em Cravasti que desejam casar-se com você!”

“Você está com medo de fazer uma escolha entre meus pretendentes?”, disse Suprabha. “Pobres homens! Se eles soubessem meus pensamentos! Não fique ansioso, pai! Diga-lhes para se reunirem e, de acordo com o antigo costume, irei em meio a eles, e eu mesma escolherei um marido dentre eles.”

“Farei como você deseja, filha.”

O pai de Suprabha foi ao Rei Prasenajit e recebeu permissão para ter um arauto a proclamar através da cidade:

“Daqui há sete dias, será realizada uma reunião de todos os homens jovens que queiram desposar Suprabha. A própria donzela escolherá um esposo dentre os que se apresentarem.”

No sétimo dia, uma multidão de pretendentes reuniu-se no majestoso jardim pertencente ao pai de Suprabha. Ela pareceu, montada em uma carruagem. Ela estava segurando um estandarte amarelo no qual estava pintada a imagem do Bem-Aventurado. Ela estava cantando os seus louvores. Todos eles olharam para ela com espanto, e se perguntaram: “O que ela nos dirá?” Ela finalmente dirigiu-se a um jovem homem.

“Não posso amar a nenhum de vocês”, disse ela, “mas não pensem que eu lhes desprezo. O amor não é o meu objetivo na vida; eu quero refugiar-me com o Buda. Irei ao parque onde ele reside, e ele me instruirá na lei.”

Tristemente, os jovens se retiraram, e Suprabha foi para o Parque de Jeta. Ela ouviu o Bem-Aventurado falar; foi admitida na comunidade, e tornou-se a mais devota Monja.

Certo dia, quando Suprabha estava deixando os jardins sagrados, ela foi reconhecida por um dos seus ex-pretendentes que passava por ali com vários amigos.

“Devemos resgatar essa mulher”, disse ele. “Eu a amei; eu ainda a amo. Ela será minha.”

Seus amigos concordaram em ajudar-lhe. Antes que Suprabha se conscientizasse, ela foi cercada, e subitamente eles decidiram raptá-la. Mas quando eles estavam prestes a agarrá-la, ela dirigiu o seu pensamento para o Buda e, imediatamente, ela levantou-se no ar. Uma multidão se juntou; Suprabha permaneceu acima deles por um tempo, e então, voando com a graça e majestade de um cisne, retornou para a sua morada sagrada.

E seus clamores seguiram-na:

“Oh Santo, você fez manifestar o poder da fé; Oh Santo, você tornou manifesto o poder do Buda. Seria injusto condenar-lhe aos prazeres terrenos do amor, oh Santo, oh Santo.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Libertação da Jovem Escrava

Ao final  de três meses, o Mestre desceu à terra e pegou a estrada para Cravasti. Quando ele estava se aproximando do Parque de Jeta, encontrou uma jovem menina. Ela era empregada de um rico habitante da cidade que estava trabalhando nos campos naquele dia. Ela estava levando-lhe uma tigela de arroz para a sua refeição. Ao se deparar com o Buda, ela sentiu-se estranhamente feliz.

“É o Mestre, o Bem-Aventurado”, ela pensou. “Meus olhos contemplam-lhe; minhas mãos quase podem tocá-lo, ele está tão próximo. Oh, que santa felicidade seria dar-lhe donativos! Mas não tenho nada que seja meu.”

Ela suspirou. Seu olhar caiu sobre a tigela de arroz.

“Este arroz… A refeição do meu mestre… Nenhum mestre pode rebaixar à escravidão alguém que já é um escravo. Meu mestre pode me bater, mas o que importa! Ele poderia colocar-me na prisão, mas eu suportaria isso tranquilamente. Darei o arroz para o Bem-Aventurado.”

Ela ofereceu a tigela de arroz ao Buda. Ele a aceitou e continuou em seu caminho para o Parque de Jeta. A jovem menina, com os olhos reluzentes de felicidade, foi à procura do seu mestre.

“Onde está meu arroz?”, ele indagou, tão logo a viu.

“Dei-lhe ao Buda como uma oferenda. Puna-me se desejar, não lamentarei; estou tão feliz pelo que fiz.”

Ele não a puniu. Ele curvou a sua cabeça e disse:

“Não, eu não a punirei. Estou dormindo e seus olhos estão despertos. Vá, você não é mais escrava.”

A jovem menina fez uma profunda reverência.

“Com sua permissão, então”, disse ela, “irei para o Parque de Jeta, e solicitarei ao Bem-Aventurado instruir-me na lei.”

“Vá”, disse o homem.

Ela foi para o Parque de Jeta; sentou-se aos pés do Buda, e tornou-se uma das mais santas mulheres na comunidade.

Ananda Kuti

Ananda Kuti (*) no Parque de Jeta. Click na imagem para site de origem.

(*) É a morada temporária de um monge budista ou principiante, designando a habitação pequena e rudimentar que cada monge construía para si próprio quando se hospedava em locais por um curto espaço de tempo. Fonte: Dhamma Dana: Pali English Glossary

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Prodígio de Kala

De Vaisali, o Mestre seguiu para Cravasti, para o Parque de Jeta. Certo dia, o Rei Prasenajit veio vê-lo. “Meu Senhoor”, disse o rei, “seis eremitas chegaram recentemente em Cravasti. Eles não acreditam na sua lei. Eles sustentam que o seu conhecimento não se iguala ao deles, e eles tentaram me surpreender realizando numerosos prodígios. Creio que suas declarações não são verdadeiras, mas seria bom, meu Senhor, que você fosse frustrar a sua audácia. A salvação do mundo depende da sua glória. Então, apareça diante desses fraudadores e impostores, e cale-os.”

“Rei”, respondeu o Mestre, “ordene que um grande salão seja construído próximo à cidade. Conclua-o em sete dias. Seguirei para lá. Providencie para que esses eremitas maldosos estejam presentes, e então você verá quem realiza os maiores prodígios, eles ou Eu.”

Prasenajit ordenou que o salão fosse construído.

Enquanto se aguardava o dia do julgamento, os eremitas mentirosos procuraram iludir os fiéis seguidores do Mestre, e aqueles que se recusavam a ouvir as suas más palavras incorriam na sua implacável inimizade. Agora, o Mestre não tinha nenhum amigo mais verdadeiro em Cravasti do que o Príncipe Kala, um irmão de Prasenajit. Kala havia demonstrado o seu desprezo pelos eremitas, e eles decidiram vingar-se.

Kala era um homem muito bonito. Certo dia, quando estava caminhando pelos jardins reias, ele encontrou uma das esposas de Prasenajit, e ela alegremente atirou-lhe uma guirlanda de flores. Os eremitas ouviram sobre esse incidente, e disseram ao rei que seu irmão havia tentado seduzir uma de suas esposas. O rei ficou furioso, e sem dar a Kala uma chance para se justificar, cortou-lhe as mãos e os pés.

O pobre Kala sofreu amargamente. Seus amigos ficavam em torno do seu leito, chorando. Aconteceu de um dos eremitas maldodos passar por ali.

“Venha, mostre o seu poder”, disseram-lhe. “Você sabe que Kala é inocente. Torne-o bom novamente!”

“Ele acredita no filho dos Shakyas”, respondeu o eremita. “Cabe ao filho dos Shakyas torná-lo bom novamente.”

Então Kala começou a cantar:

“Como pode o Mestre dos mundos falhar em ver a minha miséria? Veneremos o Senhor que não mais conhece o desejo; adoremos o Bem-Aventurado que tem piedade de todas as criaturas.”

Ananda subitamente apareceu diante dele.

“Kala”, disse ele, “o Mestre ensinou-me as palavras que curarão as suas feridas.”

Ele recitou alguns poucos versos, e o príncipe imediatamente recuperou os seus membros.

“Doravante”, ele exclamou o príncipe, “servirei ao Mestre! Por mais humildes (degradantes) que sejam as tarefas que ele me atribua, as realizarei com alegria, para satisfazê-lo.”

E seguiu com Ananda para Jetavana, o Parque de Jeta. O Mestre o recebeu carinhosamente, e admitiu-lhe na comunidade.

Parque de Jeta

Vista Geral do Parque de Jeta. Click na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Pensamento de Anathapindika

O Buda e seus discípulos estabeleceram-se no Parque de Jeta, Anathapindika ficou feliz; mas, certo dia, um pensamento solene lhe ocorreu.

“Estou sendo efusivamente elogiado”, disse para si, “e, no entanto, o que é tão admirável em minhas ações? Ofereci doações ao Buda e aos monges, e por isso adquiri o direito à uma retribuição futura; mas minha virtude beneficia apenas a mim! Devo levar outros a compartilhar do privilégio. Irei através das ruas da cidade, e daqueles a quem encontrar, obterei doações para o Buda e para os monges. Assim, muitos participarão no bem que estiver fazendo.”

Ele foi a Prasenajit, Rei de Cravasti, que era um homem sábio e justo. Disse-lhe o que tinha decidido fazer, e o rei aprovou. Um arauto foi enviado através da cidade com sua proclamação real:

“Ouçam bem, habitantes de Cravasti! Daqui a sete dias, o mercador Anathapindika, montando um elefante, percorrerá as ruas da cidade. Ele pedirá a todos vocês por donativos, que ele então oferecerá ao Buda e aos seus discípulos. Cada um de vocês dêem-lhe tudo o que puderem dispor.”

No dia anunciado, Anathapindika montou o seu melhor elefante e andou através das ruas, pedindo a cada um por doações para o Mestre e para a comunidade. Eles juntaram-se em torno dele: este deu ouro, aquele prata; uma mulher tirou o seu colar, uma outra o seu bracelete, e uma terceira uma tornozeleira; e mesmo as mais humildes doações foram aceitas.

Sravasti_Jetavana

Caminhos no Parque de Jeta. Click na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Oferecimento de Anathapindika

O Mestre estava em Rajagriha quando um rico mercador chamado Anathapindika (Sudatta) chegou de Cravasti. Anathapindika era um homem religioso, e quando ele ouviu que um Buda estava vivendo no Bosque dos Bambús, ele ficou ansioso para vê-lo.

Certa manhã ele partiu e, conforme entrou no Bosque, uma voz divina o guiou para onde o Mestre se encontrava sentado. Ele foi saudado com palavras de boas vindas; presenteou a comunidade com uma magnífica doação, e o Mestre prometeu visitá-lo em Cravasti.

Quando retornou para casa, Anathapindika começou a se perguntar onde ele poderia receber o Bem-Aventurado. Seus jardins não pareciam dignos de tal hóspede. O mais belo parque na cidade pertencia ao Príncipe Jeta, e Anathapindika decidiu comprá-lo.

“Venderei o parque”, disse-lhe Jeta, “se você cobrir o chão com moedas de ouro.”

Anathapindika aceitou os termos. Ele levou carroças carregadas de moedas de ouro para o parque e, naquela ocasião, somente uma pequena faixa de terra ficou descoberta. Então Jeta alegremente exclamou:

“O parque é vosso, mercador; terei prazer em vos dar a faixa que ainda está descoberta.”

Anathapindika tinha o parque preparado para o Mestre; então ele enviou o seu mais fiel servo ao Bosque dos Bambús, para informar-lhe que ele agora estava preparado para recebê-lo em Cravasti.

“Oh Venerável!”, disse o mensageiro, “meu mestre prostra-se aos seus pés. Espera que você tenha sido poupado da ansiedade e doença, e que você não relute em cumprir a promessa que lhe fez. Você é esperado em Cravasti, oh Venerável!”

O Bem-Aventurado não havia esquecido a promessa que fez ao mercador Anathapindika; ele desejava cumpri-la, e disse ao mensageiro: “Eu irei!”.
Ele aguardou por alguns dias; então pegou o seu manto e sua tigela de donativos, e seguido por um grande numero de discípulos, partiu para Cravasti. O mensageiro foi à frente, para dizer ao mercador que ele estava chegando.

Anathapindika decidiu ir ao encontro do Mestre. Sua esposa, seu filho e sua filha o acompanharam, e eles foram assistidos pelos mais ricos habitantes da cidade. E quando eles viram o Buda, ficaram deslumbrados pelo seu esplendor; ele parecia estar andando num caminho banhado de ouro.

Eles o escoltaram até o Parque de Jeta, e Anathapindika disse-lhe:

“Meu senhor, o que devo fazer com esse parque?” “Doe-o para a comunidade, agora e para sempre”, respondeu o Mestre.

Anathapindika ordenou ao servo trazer-lhe uma bacia de ouro cheia de água. Ele derramou a água sobre as mãos do Mestre, e disse-lhe:

“Dôo este parque para a comunidade, governada pelo Buda, agora e para sempre.”

“Muito bem!”, disse o Mestre. “Eu aceito a doação. Este parque será um refúgio feliz; aqui viveremos em paz, e encontraremos abrigo do calor e do frio. Nenhum animal vil entrará aqui: nem mesmo o zumbido de um mosquito perturbará o silêncio; e aqui haverá proteção da chuva, do vento cortante e do sol ardente. E este parque inspirará sonhos, pois aqui meditaremos hora após hora. É justo que tais doações sejam feitas para a comunidade. O homem inteligente, o homem que não negligencia seus próprios interesses, deve dar aos monges uma morada adequada; ele deve dar-lhes comida e bebida; ele deve dar-lhe roupas. Os monges, em retribuição, lhe ensinarão a lei, e aquele que conhece a lei é libertado do mal e atinge o Nirvana.”

Jetavana

Jetavana – o Parque de Jeta - Fonte Wikipedia. Click na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A História do Monastério de Jetavana

View on a section of Jetavana Monastery (in Sr...

Vista externa do Monastério de Jetavana, em Sravasti - India - Imagem via Wikipedia

“Então, Shariputra foi para Sravasti, cavalgando junto com Sudatta. Através do meu poder transcendental, eles chegaram ao seu destino em um dia. Então, Sudatta disse a Shariputra: ‘Oh Altamente Virtuoso! Afora deste portão, há um lugar bem adequado para a finalidade. Não é próximo e nem distante, onde há muitas nascentes e lagos, muitas florestas com flores e frutos; e o lugar é puro, quieto e amplo. Construirei Viharas [monastérios – locais de residência] lá para o Buda e seus Monges’. Shariputra disse: ‘A floresta do Príncipe Jeta não é próxima e nem distante. É pura e quieta. Há muitas nascentes e córregos. Há flores e frutos da estação. Esse é o melhor lugar. Construamos um Vihara lá’.

Então, ao ouvir isto, Sudatta foi ao grande homem rico, Jeta, e lhe disse: ‘Eu agora desejo construir um Vihara Budista e dedicá-lo a alguém insuperável no Dharma, em um lugar que lhe pertence. Agora desejo comprá-lo de você. Você o venderia para mim’? Jeta disse: ‘Não o venderei, mesmo que você cubra o chão com ouro’. Sudatta disse: ‘Bem falado! A floresta pertence a mim. Tome meu ouro’. Jeta disse: ‘Não estou vendendo a floresta para você. Como posso pegar o seu ouro’? Sudatta disse: ‘Se você não estiver satisfeito, irei ao magistrado’. E ambos foram juntos ao magistrado. O magistrado disse: ‘A floresta pertence a Sudatta. Jeta deve pegar o ouro’. Sudatta imediatamente enviou homens com cargas de ouro sobre carroças e cavalos. Quando chegaram, ele cobriu o chão com ouro. Em um único dia viu-se uma área de 500 ‘bu’ [unidade de medida de terra Chinesa, em torno de 6 ou 6.4 pés] coberta; e ainda não estava tudo coberto. Jeta disse: ‘Oh homem rico! Se você tem algum arrependimento dentro de você, está completamente livre para cancelar o negócio’. Sudatta disse: ‘Não sinto qualquer arrependimento’. Ele pensou para si qual dos depósitos ele abriria agora para obter ouro para a área ainda deixada sem cobertura. Jeta pensou para si: ‘O Tathagata, Rei do Dharma, é realmente alguém insuperável. As coisas maravilhosas que ele ensina são puras e imaculadas. Esse é o porquê esse homem pensa assim tão despreocupadamente sobre este tesouro’. Ele então disse a Sudatta: ‘Não necessito agora de qualquer ouro para o que permanece descoberto. Por favor, pegue-o. Eu mesmo construirei um portão para o Tathagata, tal que ele possa entrar e sair dele’. Jeta construiu o portão e, em sete dias, Sudatta construiu um grande Vihara numa área de 300 ‘ken’ [o ‘ken’ mede cerca de 6 pés] na largura e no comprimento. Havia quartos para meditação silenciosa em número de 63. Os aposentos eram diferentes para o inverno e para o verão. Havia cozinhas, banheiros, e um lugar para lavar os pés. Havia dois tipos de lavatórios.

Concluídas as construções, ele (Sudatta) pegou um incensório e, apontando na direção de Rajagriha, disse: ‘As obras estão completas agora. Oh Tathagata! Por favor, tenha piedade e ocupe este lugar, e fique (viva) aqui para o bem dos seres’. Tão logo li o pensamento desse homem rico à distância, parti de Rajagriha. No curto espaço de tempo que leva um homem forte e jovem para dobrar e estender seu braço, viajei para Sravasti, para Jetavana, e tomei posse do Monastério de Jetavana. Quando cheguei ao local, Sudatta o dedicou-me. Eu então o recebi e o habitei.”

Sutra do Nirvana, Capítulo 36, sobre o Bodhisattva Rugido do Leão 4.

the jetavana vihara history.mp3

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