Nanda Triunfa sobre a Vaidade

Mas os monges ainda olhavam para ele com desaprovação. Não falariam mais com ele; e frequentemente, quando o encontravam no Bosque dos Bambús, lhe sorriam com desdém. Isto lhe fez infeliz. Ele pensou: “Eles parecem tolerar-me com má vontade; eu me pergunto por quê?” Certo dia, ele parou Ananda que estava de passagem, e indagou-lhe:

“Por que os monges me evitam? Por que você não fala mais comigo, Ananda? Anteriormente, em Kapilavastu, éramos amigos, bem como parentes. O que fiz para ofendê-lo?”

“Pobre homem!”, respondeu Ananda. “Nós, que meditamos sobre as verdades sagradas, fomos proibidos pelo Mestre de falar com você, que medita sobre os encantos de uma Apsara!”

E o deixou.

Nanda ficou muito perturbado. Correu para o Mestre; caiu aos seus pés e chorou. O Mestre disse-lhe: “Seus pensamentos são maus, Nanda. Você é escravo dos seus sentimentos. Primeiro foi Sundarika, agora é uma Apsara que vira a sua cabeça. E você renasceria! Renasceria em meio aos Deuses? Que loucura, que vaidade! Esforce-se para alcançar a sabedoria, Nanda; dê atenção aos meus ensinamentos, e mate suas paixões devoradoras.”

Nanda ponderou as palavras do Buda. Tornou-se um discípulo muito obediente, e gradualmente purificou o seu pensamento. Sundarika não mais aparecia-lhe em sonhos, e agora, quando ele pensava na Aspara, ele ria de ter desejado tornar-se um Deus por causa dela. Um dia, quando ele viu a macaca hedionda fitando-lhe do topo de uma árvore, ele gritou numa voz triunfante:

“Salve, você que Sundarika não pode se igualar em graça; salve, você que é mais bonita até que a mais bela Aspara!”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Paixão de Nanda

O Mestre ficou feliz por contar com esses parentes em meio aos seus discípulos, e os levou para o Bosque dos Bambús. Lá, o pobre Nanda estava sofrendo. Ele não parava de pensar em Sundarika; ela frequentemente aparecia para ele em seus sonhos, e ele arrependia-se de tê-la deixado. O Buda sabia da sua infelicidade, e decidiu curá-lo.

Certo dia, pegou-lhe pelas mãos e o levou à uma árvore onde uma macaca hedionda estava sentada.

“Veja aquela macaca”, disse o Buda, “ela não é bonita?”

“Raramente vi alguém tão feio”, respondeu Nanda.

“Realmente!”, disse o Mestre. “E no entanto ela se assemelha a Sundarika, sua ex-noiva”.

“O que você está dizendo!”, exclamou Nanda. “Você quer dizer que essa macaca se parece com Sundarika, que é graciosa, e que é a beleza em si?”

“De que maneira Sundarika é diferente? Não são ambas fêmeas, ambas não despertam o desejo do macho? Acredito que você estaria disposto a deixar o caminho da santidade e correr para os braços de Sundarika, assim como em algum lugar dessa floresta há um macaco que pode ser levado a um frenesi de amor pelo ardor violento dessa fêmea. Ambas se tornarão velhas e decrépitas, e então você, bem como o macaco, ficarão a imaginar o que poderia ter causado a sua loucura. Ambas morrerão, e talvez você e o macaco então compreenderão a fatuidade da paixão. Sundarika não é diferente dessa macaca.”

Mas Nanda não estava ouvindo. Estava suspirando. Estava sonhando que via a esbelta e graciosa Sundarika vagando num jardim resplandecente em flores.

“Pegue a barra do meu manto!”, disse o Bem-Aventurado em tom imperioso.

Karnataka Apsara

Estátua em arenito do século X de uma Apsara de Madhya Pradesh, India. Fonte: Wikipedia

Nanda obedeceu. Ele sentiu a terra de repente ceder sob ele, e um vento feroz o arrastou para o céu. Quando ele firmou os pés, ele encontrava-se num parque maravilhoso. Estava andando num caminho de ouro, e as flores eram jóias vivas, feitas de rubis e safiras perfumadas.

“Você está no céu de Indra”, disse o Bem-Aventurado. “Abra seus olhos cegos!”.

Nanda viu uma casa de prata brilhante circundada por um campo de esmeraldas. Uma Apsara, muito mais bonita que Sundarika, estava de pé na porta. Ela estava sorrindo. Enlouquecido pelo desejo, Nanda correu para ela, mas ela o deteve com um gesto abrupto.

“Seja puro na terra”, ela disse-lhe; “mantenha seus votos, Nanda. Após sua morte, você renascerá aqui; então poderá correr para meus braços.”

A Apsara desapareceu. Nanda e o Mestre retornaram para a terra.

Nanda esqueceu Sundarika. Estava assombrado com a linda visão que ele tivera nos jardins celestiais e, por amor à Apsara, decidiu levar uma vida pura.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Os Novos Discípulos

O Mestre permaneceu em Cravasti por algum tempo; então, deixou a cidade para retornar à Rajagriha, onde o Rei Bimbisara o aguardava. Ele havia parado para descansar numa aldeia ao meio do caminho, quando viu sete homens aproximando-se. Ele os reconheceu. Seis eram parentes, e estavam entre os mais ricos e mais poderosos dos Shakyas. Seus nomes eram Aniruddha, Bhadrika, Bhrigu, Kimbala, Devadatta e Ananda. O sétimo era um barbeiro chamado Upali.

Aniruddha, um dia havia dito para si que era uma desgraça que nenhum dos Shakyas tivesse se prontificado a seguir o Buda. Ele decidiu dar um bom exemplo, e como não havia nenhuma razão para esconder a sua intenção, ele a revelou primeiro para Bhadrika, que era o seu melhor amigo. Bhadrika aprovou a sua decisão, e depois de pensar um pouco, decidiu fazer o mesmo. Então, esses dois conquistaram Ananda, Bhrigu, Kimbala e Devadatta; por convencê-los de que não havia uma vocação mais elevada que aquela de um monge.

Os seis príncipes, então, partiram para juntar-se ao Buda. Eles mal tinham deixado Kapilavastu quando Ananda, olhando para Bhadrika, exclamou:

“Como agora, Bhadrika, você levaria uma vida de santidade, e manteria todos as suas jóias?”

Bhadrika enrubesceu; mas então viu que Ananda também estava usando suas jóias, e respondeu sorridente:

“Olhe para si, Ananda.”

E agora foi Ananda que enrubesceu.

Após o que todos se entreolharam, e perceberam que todos ainda estavam usando as suas jóias. Isso lhes fez sentirem-se envergonhados; baixaram seus olhares, e seguiram caminhando em silêncio ao longo da estrada quando encontraram o barbeiro Upali.

“Barbeiro”, disse Ananda, “Tome minhas jóias, dou-lhes a você!”

“E tome as minhas!”, disse Bhadrika.

Os outros também entregaram as suas jóias a Upali. Ele ficou à procura de uma explicação. Por que aqueles príncipes, que nunca o haviam visto antes, deveriam dar-lhe tais presentes? Ele deveria aceitá-los? Deveria recusá-los?

Aniruddha compreendeu a hesitação do Barbeiro. Então disse-lhe:

“Não tenha receio de aceitar essas jóias. Estamos a caminho para juntarmo-nos ao grande eremita que nasceu para os Shakyas, estamos a caminho para juntarmo-nos a Siddhartha, que tornou-se o Buda. Ele nos instruirá na sabedoria, e nos submeteremos à sua lei.”

“Príncipes”, indagou o barbeiro, “vocês se tornarão monges?”

“Sim”, eles responderam.

Ele então pegou as jóias e partiu para a cidade. Mas, subitamente, ele pensou: “Estou agindo como um tolo. Quem acreditaria que os príncipes jogaram essas riquezas sobre mim? Eu serei tomado por um ladrão, ou talvez por um assassino. O mínimo que pode me acontecer é incorrer no profundo desagrado dos Shakyas. Não devo ficar com as jóias”. Ele pendurou-as numa árvore que ficava à beira da estrada. E pensou: “Aqueles príncipes estão dando um nobre exemplo. Eles tiveram a coragem de deixar seus palácios; a mim, que nada sou, faltaria coragem de deixar o meu negócio? Não! Eu os seguirei. Eu, também, irei ao Buda, ele deverá aceitar-me na comunidade!”

Ele seguiu os príncipes à distância. Ele estava tímido quanto a juntar-se a eles. Porém, aconteceu que Bhadrika voltou-se para trás. Ele viu Upali, e lhe chamou.

“Barbeiro, por que você jogou fora as nossas jóias?”, ele perguntou.

“Eu, também, quero tornar-me um monge”, respondeu o barbeiro.

“Então siga-nos”, disse Bhadrika.

Mas Upali ainda ficou para trás. Aniruddha disse-lhe:

“Caminhe ao nosso lado, barbeiro. Monges não fazem distinções, exceto para a idade e para a virtude. Quando estivermos diante do Buda, você deve ser o primeiro a dirigir-se a ele, bem como o primeiro a indagar-lhe quanto a recebê-lo na comunidade. Por condescender a você, os príncipes demonstrarão que deixaram de lado o seu orgulho de Shakya.”

Continuaram em seu caminho. De repente, um falcão desceu sobre a cabeça de Devadatta e arrancou um diamante que ele estava usando em seu cabelo. Isso expôs a sua vaidade, e fez com que os príncipes rissem. Devadatta, agora, não tinha mais uma única jóia, mas seus companheiros, em seus corações, ainda questionavam a sinceridade de sua fé.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Menina de Cravasti

Naquela ocasião, lá em Cravasti vivia uma jovem menina que era extremamente pobre. Ela tinha levado três meses para economizar dinheiro suficiente para comprar um pedaço de tecido grosseiro, do qual ela havia acabado de fazer um vestido para si. Ela viu Anathapindika cercado por uma grande multidão.

“O mercador Anathapindika parece estar esmolando”, ela disse à uma pessoa presente.

“Sim, ele está esmolando”, foi a resposta.

“Mas se diz que ele é o homem mais rico em Cravasti. Por que ele estaria esmolando?”

“Você não ouviu a proclamação real sendo apregoada através das ruas, sete dias atrás?”

“Não!”

“Anathapindika não está coletando esmolas para si. Ele deseja que cada um participe do bem que ele está fazendo, e está pedindo por donativos para o Buda e seus discípulos. Todos aqueles que doarem adquirirão direito a uma retribuição futura.”

A jovem menina disse para si: “Nunca fiz nada digno de louvor. Seria maravilhoso fazer um oferecimento ao Buda. Mas sou pobre. O que tenho eu para dar?” Ela afastou-se, melancolicamente. Olhou para o seu novo vestido. “Tenho apenas esse vestido para oferecer-lhe. Mas não posso seguir nua através das ruas.”

Ela foi para casa e tirou o vestido. Então, pôs-se à janela e observou Anathapindika. Quando ele passou em frente à sua casa, ela jogou o vestido para ele. Ele o pegou e mostrou-lhe para seus servos.

“A mulher que jogou esse vestido para mim”, disse ele, “provavelmente nada mais tem a oferecer. Ela deve estar nua, se tem que ficar em casa e dar esmolas dessa maneira estranha. Vá! Tentem encontrá-la e vejam quem ela é.”

Os servos tiveram alguma dificuldade para encontrar a jovem menina. Finalmente viram-na, e constataram que seu mestre havia sido correto em sua suposição: o vestido que lhe fora atirado pela janela era toda a fortuna da menina pobre. Anathapindika ficou profundamente comovido; ordenou a seus servos trazerem muitas roupas bonitas e caras, e deu-as a essa donzela piedosa que havia oferecido seu único vestido.

Ela morreu no dia seguinte e renasceu como uma Deusa no céu de Indra. Mas ela nunca esqueceu como ela tinha vindo a merecer tal recompensa e, certa noite, ela desceu à terra e foi ao Buda, e ele instruiu-lhe na lei sagrada.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Pensamento de Anathapindika

O Buda e seus discípulos estabeleceram-se no Parque de Jeta, Anathapindika ficou feliz; mas, certo dia, um pensamento solene lhe ocorreu.

“Estou sendo efusivamente elogiado”, disse para si, “e, no entanto, o que é tão admirável em minhas ações? Ofereci doações ao Buda e aos monges, e por isso adquiri o direito à uma retribuição futura; mas minha virtude beneficia apenas a mim! Devo levar outros a compartilhar do privilégio. Irei através das ruas da cidade, e daqueles a quem encontrar, obterei doações para o Buda e para os monges. Assim, muitos participarão no bem que estiver fazendo.”

Ele foi a Prasenajit, Rei de Cravasti, que era um homem sábio e justo. Disse-lhe o que tinha decidido fazer, e o rei aprovou. Um arauto foi enviado através da cidade com sua proclamação real:

“Ouçam bem, habitantes de Cravasti! Daqui a sete dias, o mercador Anathapindika, montando um elefante, percorrerá as ruas da cidade. Ele pedirá a todos vocês por donativos, que ele então oferecerá ao Buda e aos seus discípulos. Cada um de vocês dêem-lhe tudo o que puderem dispor.”

No dia anunciado, Anathapindika montou o seu melhor elefante e andou através das ruas, pedindo a cada um por doações para o Mestre e para a comunidade. Eles juntaram-se em torno dele: este deu ouro, aquele prata; uma mulher tirou o seu colar, uma outra o seu bracelete, e uma terceira uma tornozeleira; e mesmo as mais humildes doações foram aceitas.

Sravasti_Jetavana

Caminhos no Parque de Jeta. Click na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Oferecimento de Anathapindika

O Mestre estava em Rajagriha quando um rico mercador chamado Anathapindika (Sudatta) chegou de Cravasti. Anathapindika era um homem religioso, e quando ele ouviu que um Buda estava vivendo no Bosque dos Bambús, ele ficou ansioso para vê-lo.

Certa manhã ele partiu e, conforme entrou no Bosque, uma voz divina o guiou para onde o Mestre se encontrava sentado. Ele foi saudado com palavras de boas vindas; presenteou a comunidade com uma magnífica doação, e o Mestre prometeu visitá-lo em Cravasti.

Quando retornou para casa, Anathapindika começou a se perguntar onde ele poderia receber o Bem-Aventurado. Seus jardins não pareciam dignos de tal hóspede. O mais belo parque na cidade pertencia ao Príncipe Jeta, e Anathapindika decidiu comprá-lo.

“Venderei o parque”, disse-lhe Jeta, “se você cobrir o chão com moedas de ouro.”

Anathapindika aceitou os termos. Ele levou carroças carregadas de moedas de ouro para o parque e, naquela ocasião, somente uma pequena faixa de terra ficou descoberta. Então Jeta alegremente exclamou:

“O parque é vosso, mercador; terei prazer em vos dar a faixa que ainda está descoberta.”

Anathapindika tinha o parque preparado para o Mestre; então ele enviou o seu mais fiel servo ao Bosque dos Bambús, para informar-lhe que ele agora estava preparado para recebê-lo em Cravasti.

“Oh Venerável!”, disse o mensageiro, “meu mestre prostra-se aos seus pés. Espera que você tenha sido poupado da ansiedade e doença, e que você não relute em cumprir a promessa que lhe fez. Você é esperado em Cravasti, oh Venerável!”

O Bem-Aventurado não havia esquecido a promessa que fez ao mercador Anathapindika; ele desejava cumpri-la, e disse ao mensageiro: “Eu irei!”.
Ele aguardou por alguns dias; então pegou o seu manto e sua tigela de donativos, e seguido por um grande numero de discípulos, partiu para Cravasti. O mensageiro foi à frente, para dizer ao mercador que ele estava chegando.

Anathapindika decidiu ir ao encontro do Mestre. Sua esposa, seu filho e sua filha o acompanharam, e eles foram assistidos pelos mais ricos habitantes da cidade. E quando eles viram o Buda, ficaram deslumbrados pelo seu esplendor; ele parecia estar andando num caminho banhado de ouro.

Eles o escoltaram até o Parque de Jeta, e Anathapindika disse-lhe:

“Meu senhor, o que devo fazer com esse parque?” “Doe-o para a comunidade, agora e para sempre”, respondeu o Mestre.

Anathapindika ordenou ao servo trazer-lhe uma bacia de ouro cheia de água. Ele derramou a água sobre as mãos do Mestre, e disse-lhe:

“Dôo este parque para a comunidade, governada pelo Buda, agora e para sempre.”

“Muito bem!”, disse o Mestre. “Eu aceito a doação. Este parque será um refúgio feliz; aqui viveremos em paz, e encontraremos abrigo do calor e do frio. Nenhum animal vil entrará aqui: nem mesmo o zumbido de um mosquito perturbará o silêncio; e aqui haverá proteção da chuva, do vento cortante e do sol ardente. E este parque inspirará sonhos, pois aqui meditaremos hora após hora. É justo que tais doações sejam feitas para a comunidade. O homem inteligente, o homem que não negligencia seus próprios interesses, deve dar aos monges uma morada adequada; ele deve dar-lhes comida e bebida; ele deve dar-lhe roupas. Os monges, em retribuição, lhe ensinarão a lei, e aquele que conhece a lei é libertado do mal e atinge o Nirvana.”

Jetavana

Jetavana – o Parque de Jeta - Fonte Wikipedia. Click na imagem para site de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Buda Deixa Kapilavastu

Rahula foi com seu pai, e Gopa alegrou-se. O rei Suddhodana, somente, ficou triste: sua família estava lhe abandonando! Ele não poderia deixar de falar o seu sentimento para o Mestre.

“Não sofra”, respondeu o Mestre, “pois grande é o tesouro que compartilharão aqueles que ouvirem minhas palavras e seguirem-me! Suporte a sua dor em silêncio; seja como o elefante ferido em batalha pelas lanças do inimigo: ninguém ouve a sua queixa. Reis montam na batalha sobre elefantes que estão sob absoluto controle; no mundo, o grande homem é aquele que aprendeu a controlar-se, o homem que suporta a sua dor em silêncio. Aquele que é verdadeiramente humilde, que doma (refreia) suas paixões como se doma cavalos selvagens, é invejado pelos Deuses. Ele não comete o mal. Nem nas cavernas da montanha, e nem nas grutas oceânicas, pode-se escapar das conseqüências de uma má ação; elas (as más ações) o seguem; elas fustigam-lhe; elas levam-no à loucura, pois não lhe dão paz! Mas se você faz o bem, quando você deixar a terra as suas boas ações lhe saudarão, como amigos após o seu regresso de uma viagem. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sem ódio num mundo cheio de ódio. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos sãos num mundo cheio de doenças. Vivemos em perfeita felicidade, nós que somos incansáveis num mundo cheio de cansaço. Vivemos em perfeita felicidade, nós que nada possuímos. Alegria é a nossa comida, e somos como Deuses radiantes. O monge que vive em solidão preserva uma alma que é cheia de paz; ele contempla a verdade com um olhar límpido e calmo, e desfruta de uma felicidade desconhecida pelos mortais comuns.”

Tendo consolado o Rei Suddhodana com essas palavras, o Bem-Aventurado deixou Kapilavastu e retornou à Rajagriha.

Monte Gridhrakuta

Monte Gridhrakuta em Rajagriha. Click na imagem para post de origem.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Herança de Rahula

Certo dia, a amável Gopa estava olhando para seu filho Rahula.

“Quão belo você é, meu filho!”, ela exclamou. “Como seus olhos brilham! Seu pai lhe deve uma herança piedosa; você deve ir e reinvidicá-la.”

Mãe e filho ascenderam ao terraço do palácio. O Bem-Aventurado estava passando na rua abaixo. Gopa disse a Rahula:

“Rahula, você vê aquele monge?”

“Sim, mãe”, respondeu a criança. “Seu corpo está coberto de ouro”.

“Ele é tão belo quanto os Deuses do céu! É a luz da santidade que faz sua pele reluzir como ouro. Eu o amo, meu filho, o amo ternamente, pois ele é seu pai. Outrora, ele possuíu grandes tesouros; possuía ouro, prata e jóias de brilhantes; agora, ele vai de casa em casa, esmolando por sua comida. Mas ele adquiriu um tesouro maravilhoso: atingiu a suprema sabedoria. Vá até ele, meu filho; diga-lhe quem você é, e requeira a sua herança.”

Rahula obedeceu à sua mãe. Pôs-se de pé diante do Buda. Sentia-se estranhamente feliz.

“Monge”, disse ele, “é maravilhoso estar aqui, sob sua sombra.”

O Mestre olhou para ele. Era um olhar terno, e Rahula, sentindo-se acolhido, começou a caminhar ao seu lado. Relembrando as palavras de sua mãe, ele disse:

“Sou seu filho, meu senhor. Sei que o senhor possui o maior dos tesouros. Pai, dê-me minha herança.”

O Mestre sorriu. Não respondeu. Continuou a esmolar. Mas Rahula permaneceu ao seu lado; continuou seguindo-o e repetia:

“Pai, dê-me minha herança.”

Rahula

O jovem Príncipe Rahula solicitado por sua mãe a pedir sua herança. Imagem via Wikipedia.

Por fim, o Mestre falou:

“Filho, você nada sabe sobre este tesouro que você tem ouvido os humanos louvarem. Quando você reclama a sua herança, pensa que está reinvidicando coisas materiais de natureza perecível. Os únicos tesouros conhecidos por você são aqueles cobiçados pela vaidade humana, tesouros que a morte voraz arranca do falso rico. Mas por que deveria você ser mantido na ignorância? Você está certo de reclamar sua herança, Rahula. Você terá seu quinhão dos tesouros que são meus. Você verá os sete tesouros; você conhecerá as sete virtudes, e aprenderá o verdadeiro valor da fé e da pureza, da modéstia e cautela (reserva), da obediência, da abnegação e sabedoria. Venha, eu o colocarei a cargo do Sagrado Shariputra; ele lhe ensinará.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Nanda Renuncia à Realeza

O Mestre tomou Nanda pelas mãos e deixou o palácio. Mas Nanda estava pensativo; estava com medo que tivesse sido precipitado. Talvez se arrependesse amargamente pelo que tinha feito. Afinal, o que quer que fosse dito (a respeito do mundo), era prazeiroso e nobre o exercício do poder soberano. E Sundarika? “Quão bela ela é”, ele pensou; “será que a verei novamente?” E soltou um suspiro profundo.

Mas ele ainda seguia o Mestre. Estava com medo de falar-lhe. Não só temia a sua repreensão como temia o seu desprezo.

Subitamente, conforme dobraram uma esquina, ele viu uma jovem donzela se aproximando. Ela estava sorrindo. Ele reconheceu Sundarika, e baixou seus olhos.

“Onde você está indo?”, ela indagou-lhe.

Ele não respondeu. Ela voltou-se para o Mestre. “Você o está levando consigo?”

“Sim”, respondeu o Mestre.

“Mas ele voltará logo?”

Nanda queria gritar: “Sim, voltarei logo Sundarika!” Mas ele estava com medo, e sem uma palavra, com os olhos ainda abatidos, ele se foi com o Mestre.

Então Sundarika soube que Nanda estava perdido para ela, e chorou.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Conversão de Nanda

Quando Siddharta se retirou do mundo, o Rei Suddhodana havia escolhido Nanda, um outro dos seus filhos, para sucedê-lo no trono. Nanda ficara feliz de pensar que um dia ele seria rei, e ficara também feliz com a idéia de seu casamento vindouro com a princesa Sundarika, a bela Sundarika a quem ele amava ternamente.

O Mestre temia por seu irmão; estava temeroso de que ele se perdesse no caminho do mal. Certo dia, foi a ele e disse-lhe:

“Vim a você, Nanda, porque sei que você está muito feliz, e quero ouvir de seus próprios lábios a razão para essa felicidade. Então fale, Nanda; desnude seu coração para mim.”

“Irmão”, respondeu Nanda, “Duvido que você compreenda, pois uma vez que você desprezou o poder soberano, eu e você desistimos do amor de Gopa!”

“Você espera ser rei algum dia, e esse é o porquê você está feliz, Nanda!”

“Sim. E eu estou tão feliz porque eu amo Sundarika, e porque Sundarika logo será minha noiva.”

“Pobre homem!”, lamentou o Mestre. “Como pode estar feliz, você que vive na escuridão? Você quer ver a luz? Então primeiro livre-se da felicidade: o medo nasce da felicidade, medo e sofrimento. Nem teme e nem sofre aquele que não sente mais felicidade. Livre-se do amor: o medo nasce do amor, medo e sofrimento. Nem teme e nem sofre aquele que não sente mais amor. Se você busca a felicidade no mundo, seus esforços serão em vão, o seu prazer se tornará dor; a morte está sempre presente, pronta para desabar sobre o infeliz e calar o seu riso e o seu cântico. O mundo é nada mais que chamas e fumaça, e todas as coisas no mundo sofrem pelo nascimento, pela velhice e pela morte. Desde que você lamentavelmente começou a vagar de existência para existência, você tem derramado mais lágrimas do que as águas que há nos rios ou nos mares. Você tem entristecido e tem chorado por ter sido contrariado em seus desejos, e tem chorado e entristecido quando aconteceu o que você temia. A morte da mãe, a morte do pai, a morte dos irmãos, a morte das irmãs, a morte de um filho, a morte de uma filha, oh, quantas vezes, através dos tempos, essas coisas não lhe causaram dor de cabeça? E quantas vezes você não perdeu a sua fortuna? E cada vez que você teve motivos para tristeza, você chorou, chorou e chorou, e derramou mais lágrimas do que as águas que há nos rios ou nos mares!”

Nanda, num primeiro momento, prestou pouca atenção ao que o Buda estava dizendo, mas conforme começou a ouvir, aquelas palavras tocaram-no profundamente. O Mestre continuou:

“Olhe para o mundo como uma bolha de sabão; como se fosse apenas um sonho, e a morte soberana passará por você.”

E ficou em silêncio.

“Mestre, Mestre”, clamou Nanda, “Serei seu discípulo! Leve-me com você.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

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