Carta a Um Amigo

Campinas, 02 de junho de 1989.

 

Prezado Senhor S. O.,

 

Gostaria de expressar-lhe meus sentimentos pessoalmente. Entretanto, como o senhor sabe, os agentes deste mundo não são apenas pessoas, mas também ações. Por essa razão decidi lhe escrever.

Se o senhor sofre perseguições e incompreensão, não há dúvidas que o senhor foi companheiro do Buda nas perseguições e na incompreensão em todos os tempos. Assim é a Lei do Carma, e o senhor deve ter morrido incontáveis vezes por essa razão.

Igualmente por essa razão, foi-lhe confiada a missão de propagar o Verdadeiro Ensino. Invejável é a vossa fé. Quão respeitável é a vossa luta nestes tempos. Talvez, pela primeira vez na eternidade o senhor possa recitar livremente Namu Shakyamuni Butsu, Nam-Myoho-Rengue-Kyo. Isto é um fato tão extraordinário que o senhor pode não compreender. Creia, portanto, no Buda que profetizou esta época: uma época de maldade.

Crer no inigualável é uma espécie de sublimação possível para a mente de um mortal neste século das ciências. A ciência que tudo igualou nas suas equações, esqueceu-se, todavia, da grande desigualdade dos mundos que a mente campeia. O desigual é a chave de todos os fenômenos: causa e efeito; ação e reação; cheio e vazio; positivo e negativo; chave e fechadura. O buraco da fechadura só executa a sua função quando preenchido com a chave. Um desejo só é satisfeito quando preenchido com a renúncia.

A iluminação, portanto, só pode ocorrer em meio às circunstâncias adversas. Não há dúvidas que suas fraquezas e seus temores são a chave da sua própria libertação e iluminação. Se um mortal comum tem o poder de arrastar um Buda para o inferno, quão inimaginável será o poder de um Buda sobre o mortal comum?

Em uma de suas escrituras, Nitiren Daishonin diz: “o propósito do advento do Lorde Buda neste mundo estava em seu comportamento como ser humano. Quão profundo! O sábio deve ser chamado humano, e os tolos, animais” [1].

Considere as palavras de quem o admira e que, por tal admiração, veio a praticar o Budismo.

 


[1] Nitiren Daishonin em “As Três Espécies de Tesouro”.

%d blogueiros gostam disto: