A Negativa de Dandapani

“Amigo”, disse ele, “Chegou o tempo para meu filho Siddhartha se casar. Creio que sua filha Gopa tenha caído na graça dos seus olhos. Você daria sua mão em casamento para meu filho?”

Dandapani não respondeu de imediato. Ele hesitou, e novamente o rei indagou-lhe:

“Você daria a mão de sua filha em casamento para meu filho?” Então Dandapani disse:

“Meu senhor, seu filho foi criado em meio ao luxo; ele nunca esteve para fora dos portões do palácio; suas habilidades físicas e intelectuais nunca foram postas à prova. Você sabe que os Shakyas somente entregam suas filhas em casamento para homens que sejam hábeis e fortes, bravos e sábios. Como posso entregar minha filha a seu filho que, até agora, tem mostrado gosto somente para a indolência?”

Essas palavras desconcertaram o Rei Suddhodana. Ele pediu para ver o príncipe. Siddhartha veio imediatamente.

“Pai”, disse ele, “você parece muito triste. O que aconteceu?”

O rei não sabia como dizer-lhe o que Dandapani havia expressado tão veementemente. Permaneceu em silêncio.

O príncipe repetiu:

“Pai, você parece muito triste. O que aconteceu?”

“Não me pergunte”, respondeu Suddhodana.

“Pai, você está triste, o que aconteceu?”

“É um assunto doloroso; preferiria não falar sobre isso.”

“Explique-se, pai. É sempre bom ser explícito.”

O rei finalmente decidiu relatar a conversa que ele teve com Dandapani. Quando ele terminou, o príncipe começou a rir.

“Meu senhor”, disse ele, “você está perturbado desnecessariamente. Você acredita que haja alguém em Kapilavastu superior a mim em força ou intelecto? Convoque todos os que são famosos por seus feitos em qualquer que seja o campo; ordene-lhes a medir as sua aptidões (habilidades) com as minhas, e eu lhe mostrarei o que posso fazer.”

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Gopa, a Consorte do Príncipe

Ele pensou sobre as qualidades que mais sobrelevaria numa mulher. Então, no sétimo dia, ele retornou a seu pai.

“Pai”, disse ele, “aquela com a qual me casarei deverá ser uma mulher de raro mérito. Se você encontrar alguém dotada com os dons naturais que enumerarei, você poderá dá-la a mim em casamento.”

E disse:

“Aquela com a qual me casarei deverá estar na flor da juventude; aquela com a qual me casarei terá a flor da beleza; no entanto, sua juventude não a tornará vaidosa, e nem a sua beleza a tornará orgulhosa. Aquela com a qual me casarei terá a afeição de uma irmã, a ternura de uma mãe, para com todas as criaturas viventes. Ela será doce e verdadeira, e não conhecerá a inveja. Nunca, nem mesmo em seus sonhos, pensará em qualquer outro homem senão seu marido. Nunca usará linguagem arrogante; seus modos serão simples; e será tão dócil quanto uma escrava. Ela não cobiçará aquilo que pertence aos outros; não fará exigências incabíveis, e estará satisfeita com o seu quinhão. Não será inclinada aos vinhos, e doces não a tentarão. Será insensível à música e perfume; será indiferente aos jogos (peças de teatro) e festivais. Ela será gentil com os meus atendentes e suas acompanhantes. Será a primeira a levantar-se e a última a dormir. Aquela com a qual me casarei será pura no corpo, na boca, e na mente.”

E acrescentou:

“Pai, se você conhece uma donzela que possua essas qualidades, você poderá dá-la a mim em casamento.”

O rei convocou o sacerdote da família. Enumerou as qualidades que o príncipe buscava na mulher com a qual se casaria, e então ordenou:

“Vá”, disse ele, “vá, brahman. Visite todos os lares de Kapilavastu; observe as jovens donzelas e interrogue-lhes. E se você encontrar uma que possua as qualidades necessárias, traga-a para o príncipe, ainda que ela seja da mais baixa casta. Pois não é pela posição e nem riqueza que meu filho procura, mas pela virtude.”

O sacerdote vasculhou a cidade de Kapilavastu. Visitou as casas, viu as donzelas, questionou-as inteligentemente; mas não encontraria nenhuma digna do Príncipe Siddhartha. Finalmente, ele veio à casa de Dandapani, que era da família Shakya. Dandapani tinha uma filha chamada Gopa. Ao deparar-se com ela, o coração do sacerdote regozijou, por ser ela muita bela e cheia de graça. Disse-lhe algumas poucas palavras, e não teve mais dúvidas.

O sacerdote retornou ao Rei Suddhodana. “Meu senhor!”, ele exclamou, “encontrei uma donzela digna do seu filho.”

“Onde a encontrou?” indagou o rei.

“Ela é filha do Shakya, Dandapani”, respondeu o brahman.

Embora tivesse grande confiança no seu sacerdote da família, Suddhodana hesitou em convocar Gopa e Dandapani. “Mesmo os homens mais sábios podem cometer enganos”, ele pensou. “O brahman pode estar exagerando em suas qualidades. Devo submeter a filha de Dandapani a um teste adicional, e meu próprio filho a julgará.”

Ele possuía muitas jóias confeccionadas em ouro e prata, e por ordem real um arauto foi enviado pelas ruas de Kapilavastu, clamando:

“No sétimo dia a partir de hoje, o Príncipe Siddhartha, filho do Rei Suddhodana, oferecerá presentes às jovens donzelas da cidade. Assim sendo, todas as jovens donzelas podem comparecer ao palácio no sétimo dia!”

No dia anunciado, o príncipe sentou-se ao trono no grande salão do palácio. Todas as jovens donzelas da cidade estavam presentes e perfilaram-se diante dele. A cada uma ele presenteou uma jóia, mas, conforme elas se aproximavam do trono, sua beleza marcante as intimidava tanto que elas abaixavam o olhar ou, voltando suas cabeças,  o desviavam para longe. Quase não tiveram tempo de receber seus presentes; algumas estavam com tanta pressa de se afastar que meramente tocaram o presente com as pontas dos seus dedos, e este caiu ao chão.

Gopa foi a última a aparecer. Ela avançou destemidamente, sem sequer fechar os olhos. Mas o príncipe já não tinha uma única jóia disponível. Gopa sorriu e disse-lhe:

“Príncipe, de que forma o ofendi?”

“Você não me ofendeu”, respondeu Siddhartha.

“Então por que você me trata com desdém?”

“Não a trato com desdém”, ele respondeu. “Você é a última, e não tenho mais jóias para lhe dar.”

Mas subitamente lembrou que sobre seu dedo ele estava usando um anel de grande valor. Ele o tirou e o entregou à jovem donzela.

Ela não pegou o anel.

Ela disse, “Príncipe, devo aceitar este anel de você?”

“Era meu”, respondeu o príncipe, “e você deve aceitá-lo.”

“Não”, disse ela, “eu não privaria você de suas jóias. Eu é que devo dar-lhe uma jóia.” E saiu.

Quando o rei soube desse incidente, ficou exultante.

“Gopa, somente, poderia enfrentar meu filho”, ele pensou; “somente ela é digna de você. Gopa, quem não aceitaria o anel que você (meu filho) tirou do seu dedo? Gopa, oh meu filho, será a sua mais bela jóia.”

E chamou o pai de Gopa ao palácio.

Siddhartha apresenta o anel para Gopa no Palácio

Siddhartha apresenta o anel para Gopa no palácio. Click na imagem para ir ao site de origem.

Fonte: Lalitavistara (Vida do Buda) em Borobudur

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Sombra do Bodhi

A Sombra do Bodhi

Wisdom Quarterly - Click na imagem para ir ao site de origem.

Neste ínterim, o Rei Suddhodana se perguntou o que tinha acontecido com o príncipe, e enviou muitos servos à sua procura. Um deles o encontrou absorvido em meditação. O servo aproximou-se, então subitamente parou, perplexo com admiração. Pois as sombras de todas as árvores tinham se distanciado (alongado devido à posição do sol), exceto a daquela Árvore sob a qual o príncipe estava sentado. Sua sombra não havia se movido; ela ainda o abrigava.

O servo correu de volta ao palácio do rei.

“Meu senhor!”, ele clamou, “Eu vi seu filho; ele está meditando sob uma árvore cuja sombra não se moveu, muito embora as sombras de todas as outras árvores tenham se movido e alongado.”

Suddhodana deixou o palácio e acompanhou o servo para onde seu filho estava sentado. Chorando de alegria, disse para si:

“Ele é tão belo quanto o fogo no topo de uma montanha. Ele me deslumbra. Ele será a luz do mundo, e meus membros tremem quando o vejo assim em meditação.”

O rei e seu servo não ousaram mover nem falar. Mas algumas crianças passaram por ali, puxando uma pequena carruagem atrás deles. Estavam fazendo um barulho. O servo disse-lhes , num susurro:

“Não devem fazer barulho.”

“Por quê?” indagaram as crianças.

“Vêem quem medita sob a árvore? Aquele é o Príncipe Siddhartha. A sombra da árvore não o deixou. Não o perturbem, crianças; vocês não vêem que ele tem o brilho do sol?”

Mas o príncipe despertou das suas meditações. Levantou-se e aproximando-se do seu pai, disse-lhe:

“Devemos cessar o trabalho nos campos, pai; devemos buscar as grandes verdades.”

E retornou para Kapilavastu.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Os Cinco Eremitas

Ao deixar Visvamitra, o príncipe foi ao campo e começou a caminhar em direção a uma aldeia.

No caminho, ele parou para contemplar alguns camponeses trabalhando na lavoura, e então entrou numa campina onde havia um aglomerado de árvores. As árvores atraíram-lhe pois era meio-dia e estava muito quente. O príncipe foi a elas e sentou-se à sombra de uma árvore. Lá, começou a ponderar, e logo estava mergulhado em meditação.

Cinco eremitas itinerantes passaram nas proximidades da campina. Eles viram o príncipe em meditação, e se perguntaram:

“É ele um Deus, este que lá está sentado, descansando? Seria ele o Deus da riqueza, ou o Deus do amor?

Seria ele Indra, o portador dos trovões, ou o pastor Krishna?”

Mas eles ouviram uma voz dizendo-lhes:

“O esplendor dos Deuses empalideceria diante do esplendor deste Shakya que senta-se sob a árvore e pondera verdades majestosas!”

Ao que todos eles exclamaram:

“De fato, aquele que senta e medita sob a árvore ostenta as marcas da onipotência; idubitavelmente, ele tornar-se-á o Buda!”

Então, eles cantaram os seus louvores, e o primeiro deles disse: “A um mundo consumido pelo fogo da maldade, ele veio como um lago. Sua lei refrescará o mundo.”

O segundo disse: “Para um mundo obscurecido pela ignorância, ele veio como uma tocha. Sua lei trará luz ao mundo.”

O terceiro disse: “Através do mar do sofrimento, esse mar tão difícil de navegar, ele veio como um navio. Sua lei conduzirá o mundo de forma segura ao porto.”

O quarto disse: “Àqueles presos aos grilhões da maldade, ele veio como um redentor. Sua lei libertará o mundo.”

O quinto disse: “Àqueles atormentados pela velhice e doença, ele veio como um salvador. Sua lei trará a libertação do nascimento e morte.”

Por três vezes eles se curvaram, e então seguiram o seu caminho.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Visvamitra – O Primeiro Professor

O Príncipe amadureceu, e veio o tempo para estudar com o mestre que instruía os jovens Shakyas na arte da escrita. Esse mestre chamava-se Visvamitra.

Siddhartha foi confiado ao seus cuidados. A ele foi dado, para escrever, uma tabuleta de sândalo dourado, emoldurada com pedras preciosas. Quando ele a tomou em suas mãos, indagou:

“Qual escrita, mestre, você teria que me ensinar?”

E enumerou as sessenta e quatro variedades de escrita. E indagou novamente:

“Mestre, qual dessas sessenta e quatro você teria que me ensinar?”

Visvamitra não respondeu: ele ficou mudo de espanto. Finalmente, respondeu:

“Vejo, meu senhor, que não há nada que eu possa ensiná-lo. Das escritas que você mencionou, algumas são conhecidas por mim apenas pelo nome, e outras são desconhecidas por mim até pelo nome. Eu é que deveria sentar-me aos seus pés e aprender. Não, meu senhor, não há nada que eu possa ensiná-lo.”

Ele ficou sorrindo, e o príncipe retribuiu o seu olhar afetuoso.

Visvamitra

O príncipe é ensinado pelo Brahman Visvamitra que, ao ver pela primeira vez o jovem, desmaiou com a visão de seu brilho. Click na imagem para ir ao site de origem.

Local: Borobudur, Indonesia.

Veja esse majestoso lugar sagrado clicando no link acima.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

A Morte de Maya

Essas palavras de Asita, num primeiro momento, agradaram Suddhodana, e ele as ponderou. “Então meu filho viverá, e viverá gloriosamente”, ele pensou, mas então tornou-se ansioso. Por ter sido dito que o príncipe renunciaria a realeza, que ele levaria a vida de um eremita, significaria então que por ocasião sua morte a família de Suddhodana se extinguiria?

Mas sua ansiedade durou pouco, porque desde o nascimento de Siddhartha, o rei não empreenderia nada mais que não prosperasse. Como um grande rio cujas águas são supridas por muitos tributários, a cada dia novas riquezas vertiam em seus tesouros; os estábulos tornaram-se muito pequenos para abrigar os cavalos e elefantes que lhe eram presenteados, e ele constantemente estava cercado por uma multidão de amigos leais. O reinado era rico em terras férteis, e elegante, o rebanho gordo pastava nos prados. Mulheres pariam seus filhos sem sofrimento; homens viviam em paz com seus vizinhos, e a felicidade e tranquilidade reinavam nos domínios de Kapilavastu.

Mas a alegria que adviera a Maya provou ser doce demais. Logo tornou-se insuportável. O mundo a conheceu como uma mãe, mas não por mais de sete dias; então ela morreu e ascendeu ao céu para ser recebida entre os Deuses.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Nascimento de Siddhartha

Bodhitree and the pond Mayadevi (Buddha's moth...

Árvore Bodhi e o lago onde a Rainha Maya banhou-se antes de dar à luz o futuro Budha - Imagem via Wikipedia

Meses passaram. Então, certo dia, a rainha sabia que a hora se aproximava para o nascimento do seu filho. Ela foi ao Rei Suddhodana, e disse-lhe:

“Meu senhor! Gostaria de caminhar feliz pelos jardins. Pássaros estão a cantar nas árvores, e o ar cintila com polens de flores. Gostaria de caminhar feliz pelos jardins.“

“Mas isto a cansará, oh rainha“, respondeu Suddhodana. “Você não tem medo?“

“O ser inocente que carrego em meu útero deve nascer em meio à inocência do desabrochar das flores. Não, eu irei, oh mestre, irei para os jardins em flores.”

O rei atendeu ao desejo de Maya. Ele disse aos seus criados:

“Vá para os jardins e embeleze-os em prata e ouro. Decore as árvores com pingentes preciosos. Tornem tudo magneficente por onde a rainha passará.“

Então, ele dirigiu-se a Maya:

“Arrume-se, hoje, em grande esplendor, oh Maya. Passeie num deslumbrante palanquin; deixe-se carregar pelas suas mais belas acompanhantes. Ordene aos seus serventes para que usem perfumes raros; que adornem-se com colares de pérolas e braceletes de pedras preciosas; que carreguem alaúdes, tambores e flautas; e cantem suaves canções que deleitem os próprios Deuses.“

Rainha Maya rumo a Lumbini

Rainha Maya rumo à Lumbini, onde deu à luz o príncipe Siddharta. Fonte Wikipedia: Click na imagem para ir ao site de origem.

Painel do Lalitavistara, Borobudur, Indonésia

Suddhodana foi obedecido, e quando a rainha chegou aos portões do palácio, os guardas saudaram-na com alegre clamor. Sinos repicaram alegremente, pavões abriram suas esplendorosas caudas, e o canto dos cisnes ecoou no ar.

Eles chegaram a um bosque onde as árvores estavam em floração, em Lumbini, e Maya ordenou-lhes descansar o palanquin. Ela saiu e começou a perambular sem rumo. Estava feliz. E eis! Ela encontrou uma árvore rara, cujos ramos pendiam sob a carga de flores. Ela foi à árvore. Graciosamente estendendo a sua mão, ela tirou um ramo. De repente, ela ficou muito quieta. Sorriu, e as acompanhantes que estavam próximas a ela receberam uma linda criança em seus braços.

Naquele exato momento, tudo o que era vivo no mundo vibrou com alegria. A terra tremeu. Canções e passadas de pés dançantes ecoaram no céu. Árvores de todas as estações explodiram em flores, e frutas maduras pendiam dos galhos. Uma luz pura e serena apareceu no céu. Os doentes libertaram-se do seu sofrimento. Os famintos foram satisfeitos. Aqueles a quem o vinho embriagara tornaram-se sóbrios. Loucos recuperaram a razão, os fracos a sua força, os pobres a sua riqueza. Prisões abriram seus portões. Os ímpios purificaram-se de todos os males.

Uma das acompanhantes de Maya apressou-se ao Rei Suddhodana e exclamou alegremente:

“Meu senhor, meu senhor! Seu filho nasceu, um filho que trará grande glória para sua casa!“

Ele ficou sem palavras. Mas sua face estava radiante de alegria, e sentia grande felicidade.

Imediatamente ele conclamou todos os Shakyas, e ordenou-lhes acompanhá-lo ao jardim onde a criança havia nascido. Eles obedeceram-lhe e, com uma multidão de brâmanes em acompanhamento, formaram uma nobre comitiva que solenemente seguiu o rei.

Quando se aproximou da criança, o rei fez profunda reverância, e disse:

“Curvem-se como eu me curvo diante do Príncipe, a quem darei o nome de Siddhartha.“

Todos se curvaram, e os brâmanes, inspirados pelos Deuses, então cantaram:

“Todas as criaturas estão felizes,

e os caminhos percorridos pelos homens não serão mais acidentados,

pois é nascido,

aquele que concede a felicidade:

ele trará a felicidade para o mundo.

Na escuridão, uma grande luz resplandeceu,

o sol e a lua são como brasas,

pois é nascido,

aquele que concede a luz:

ele trará luz para o mundo.

O cego vê, o surdo ouve,

os tolos recuperam a sua razão,

pois é nascido,

aquele que restaura a visão, que restaura a audição, e restaura a mente:

ele trará visão, ele trará audição, ele trará razão para o mundo.

Zéfiros (brisa – ventos do ocidente) perfumados

aliviam o sofrimento da humanidade,

pois é nascido,

aquele que cura:

ele trará saúde para o mundo.

As chamas não são mais impiedosas,

as correntezas dos rios acalmaram,

a terra tremeu suavemente:

ele será o único a ver a verdade.“

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Sonho de Maya

O Sonho de Maya

Click na imagem para ir ao site de origem

No momento em que a primavera nascia, um sonho veio a Maya enquanto ela dormia. Ela viu um jovem elefante descendo dos céus. Tinha seis grandes presas; era tão branco quanto a neve sobre o topo da montanha. Maya o viu entrar em seu útero, e milhares de Deuses subitamente apareceram diante dela. Eles louvaram-na com canções imortais, e Maya compreendeu que nunca mais sofreria de inquietação, ódio ou ira.

Então, ela despertou. Estava feliz; era uma felicidade que ela jamais sentira antes. Levantando-se, ela vestiu-se de cores brilhantes e, seguida pelas suas mais belas acompanhantes, passou através dos portões do palácio. Caminhou nos jardins até chegar a um pequeno bosque, onde encontrou um lugar à sombra. Então, ela enviou duas de suas acompanhantes ao Rei Suddhodana com a seguinte mensagem:

“Que o Rei deveria vir para o bosque; a Rainha Maya deseja vê-lo e o aguardará lá.”

O Rei prontamente atendeu ao seu pedido. Ele deixou o salão onde, com a ajuda dos seus conselheiros, ele vinha administrando justiça aos habitantes da cidade.

Ele caminhou em direção ao bosque, mas, no momento em que estava prestes a entrar, um estranho sentimento lhe acometeu. Seus membros fraquejaram, suas mãos tremiam, e lágrimas brotaram de seus olhos. E ele pensou:

“Nunca, nem mesmo no calor da batalha quando enfrentava meus mais bravos inimigos, me senti tão profundamente abalado como neste momento. Por que não posso entrar no bosque onde a rainha me aguarda? Alguém pode explicar essa minha agitação?”

Momento em que uma poderosa voz trovejou no céu:

“Sinta-se feliz, Rei Suddhodana, o mais digno dos Shakyas! Aquele que busca a Suprema Sabedoria está prestes a vir ao mundo. Aquele que escolheu pertencer à sua família em razão da sua fama, boa sorte e virtude, e que escolheu para sua mãe a mais nobre de todas as mulheres, sua esposa, a Rainha Maya. Sinta-se feliz, Rei Suddhodana! Aquele que busca a Suprema Sabedoria, de bom grado será seu filho!”

O Rei sabia que os Deuses estavam falando, e regozijou-se. Recobrando a sua serenidade, ele entrou no bosque onde Maya o aguardava.

Ele a viu, e calmamente, sem arrogância, indagou-lhe:

“Por que mandou procurar-me? O que você deseja?”

A rainha contou-lhe do sonho que teve, e então disse-lhe:

“Meu senhor, há brâmanes que são experts na interpretação de sonhos. Procure-os. Eles saberão se o palácio foi visitado por deuses ou demônios, e se devemos regozijar ou lamentar.”

O rei concordou com a rainha, e brâmanes familiarizados com o mistério dos sonhos foram convocados ao palácio. Quando ouviram a história de Maya, falaram dessa maneira:

“Uma grande alegria deve ser sentida, oh Rei, oh Rainha. Vocês terão um filho, distinto pela graça Divina. Se, um dia, ele renunciar à realeza, deixar o palácio, deixar o amor de lado; se, movido pela compaixão para com os mundanos, ele escolher a vida errante de um monge, ele merecerá os mais elevados louvores, merecerá os mais magníficos oferecimentos. Ele será adorado pelos mundanos, pois ele lhes dará aquilo que eles anseiam. Oh mestre, oh mestra, vosso filho será um Buda!”

Os brâmanes se retiraram. O rei e a rainha entreolharam-se, e suas faces tornaram-se radiantes de felicidade e paz. Suddhodana então ordenou que esmolas fossem distribuídas aos pobres em Kapilavastu; que comida fosse oferecida aos famintos, bebida aos sedentos, e que as mulheres recebessem flores e perfumes. Maya tornou-se objeto de veneração do povo; os doentes lotavam o seu caminho, e quando ela estendia a sua mão direita, eles eram curados. O cego viu, o surdo ouviu, o mudo falou, e quando moribundos tocavam uma folha da grama que ela havia recolhido, recuperavam imediatamente a sua saúde e energia. E sobre a cidade, uma melodia incessante era trazida pelo vento, flores raras choviam do céu, e cânticos de gratidão alçavam o ar ao redor das muralhas do palácio.

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

O Rei Suddhodana e a Rainha Maya – O Cenário

Remains of some structures (houses or the Roya...

Remanescências da cida de Kapilavastu. Image via Wikipedia

O Cenário

Serena e magnífica era esta cidade onde outrora habitou o grande eremita Kapila. Parecia ser edificada a partir de fragmentos do céu: as muralhas eram como nuvens de luz, e suas edificações e jardins irradiavam um esplendor divino. Pedras preciosas cintilavam em todos os lugares. Para dentro de seus portões, a escuridão era tão pouco conhecida quanto a pobreza. À noite, quando raios prateados de luar tocavam cada torre, a cidade tornava-se parecida com um lago de lírios; ao dia, quando os terraços eram banhados pela luz dourada (do sol), a cidade tornava-se parecida com um lago de lótus.

O Rei Suddhodana reinou em Kapilavastu. Ele era o seu mais brilhante ornamento. Era gentil e generoso, modesto e justo. Ele perseguiu seus mais valentes inimigos, os quais caíram diante dele na batalha como elefantes abatidos por Indra; e como a escuridão é dissipada pelos penetrantes raios de sol, assim os ímpios foram vencidos pela sua glória radiante. Ele trouxe a luz para o mundo, e apontou o verdadeiro caminho para aqueles que estavam juntos a ele. Sua grande sabedoria atraíram-lhe muitos amigos, muito corajosos, amigos sagazes, e assim como as luzes das estrelas intensificam o brilho da lua, intensificava-se o brilho do seu esplendor.

Soddhodana, Rei do Clã dos Shakyas, havia desposado muitas rainhas. Sua favorita dentre aquelas era Maya.

Ela era muito bela. Era como se a própria Deusa Lakshmi devaneasse pelo mundo. Quando ela falava, era como o cântico dos pássaros na primavera, e suas palavras eram doces e agradáveis. Seus cabelos eram da cor da abelha negra; sua fronte tão casta quanto um diamante; seus olhos tão ternos quanto uma jovem folha do lótus azul; e nenhuma carranca demarcava as curvas requintadas das suas sobrancelhas.

Era virtuosa. Desejava a felicidade de seus súditos; era atenciosa quanto aos preceitos piedosos (recebidos) de seus professores. Era verdadeira, e sua conduta exemplar.

O Rei Suddhodana e a Rainha Maya viveram felizes e tranqüilamente em Kapilavastu.

Rei Suddhodana e a Rainha Maya

Rei Suddhodana e a Rainha Maya

A vida do Buda, tr. para o francês por A. Ferdinand Herold [1922], tr. para o inglês por Paul C. Blum [1927], rev. por Bruno Hare [2007], tr. para português brasileiro por Marcos U. C. Camargo [2011].

Fonte: Sacred-Texts em http://www.sacred-texts.com/bud/lob/index.htm

Sankassa

A fama de Sankassa se origina de declarações e afirmações registradas em antigos comentários do Tipitaka. (Sânskrito: Tripiṭaka – literalmente significando ‘três cestos’).

Os ‘três cestos’ são como segue:

  1. Vinaya Pitaka (‘Cesto da Disciplina Monástica’), tratando das regras monásticas para monges e monjas;
  2. Sutta Pitaka (‘Cesto dos Sutras/Provérbios), discursos e preleções atribuídos ao Buda, em sua maioria, mas também aos discípulos;
  3. Abhidhamma Pitaka, tratados abrangendo os campos da filosofia, psicologia, metafísica, etc.

Todavia, no Tipitaka em si, os eventos que supostamente teriam ocorrido em Sankassa não são mencionados no seu todo.

sankassa

Sankassa - outdoors.webshots.com

Foi em Sankassa que (de acordo com os comentátrios) o Buda retornou à terra após pregar o Abhidhamma Pitaka no Céu Trayastrimsa, cujo evento ocorreu após a realização do “Duplo Milagre” sob a árvore Gandamba.

Ao aproximar-se a ocasião de o Buda deixar o Céu Trayastrimsa, Maudgalyayana anunciou seu retorno para a multidão que esperava em Sravasti (Savatthi), sendo alimentados por Culla Anathapindika (que teria provido a multidão de comida por três meses enquanto esperavam em assembléia a descida do Buda do Céu Trayastrimsa, após a sua pregação do Abhidhamma Pitaka), enquanto Maudgalyayana expunha o Dharma. Eles então seguiram para Sankassa.

A descida do Buda aconteceu no dia do festival da Lua-Cheia (Mahapavarana). Sakra-Indra forneceu três escadas para a descida do Buda do (Monte) Sumeru (em cujo pico encontra-se o Céu Trayastrimsa) para a terra: à direita estava uma escada de ouro para os deuses; à esquerda uma escada de prata para Maha Brahma e seu séquito; e ao meio uma escada de jóias para o Buda. As pessoas em assembléia cobriam uma área de trinta léguas sobre a terra. Havia uma clara visão dos nove mundos de Brahma acima, e do inferno Avichi abaixo. O Buda estava acompanhado por Pañcasikha, Mátali, Mahá Brahmá and Suyáma. Shariputra foi o primeiro a dar-lhe boas vindas (seguido por Uppalavanna), e o Buda pregou a Lei, começando pelo que estava ao alcance da compreensão até mesmo de uma pessoa mundana, e terminando com aquilo que somente um Buda poderia compreender.

Naquela ocasião foi pregado o Parosahassa Játaka para proclamar à multidão a sabedoria incomparável de Shariputra. Foi dito também que a descida do Buda em Sankassa havia provido a oportunidade para Maudgalyayana demonstrar a sua eminência nos poderes sobrenaturais (iddhi), Anirudha no olho celestial (dibbacakkhu), e Purna na habilidade de pregação. O Buda desejava conceder a Shariputra uma chance de brilhar em sua sabedoria. Assim, ele indagou a Shariputra questões que ninguém poderia responder. As palavras de abertura do Sutra Shariputra supostamente se referem a essa ocasião.

O local do portão da cidade de Sankassa é um dos pontos ‘imutáveis’ do mundo (avijahitatthanam). Todos os Budas descem naquele ponto ao mundo dos humanos após pregarem o Abhidhamma. De Sankassa, o Buda foi para Jetavana.

Uma torre votiva foi erigida no ponto onde o pé direito do Buda tocou pela primeira vez o solo de Sankassa. Quando os pelegrinos chineses, Hiouen Thsang e Fa Hien, visitaram o lugar, eles encontraram três escadas, as quais haviam sido construídas de tijolos e pedras pelos ancestrais, para comemorar a descida do Buda, mas essas escadas estavam praticamente soterradas.

fonte: Wikipedia – A Enciclopédia livre – Sankassa

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