A Sangha Sem Fé

Encontrava-me num lugar em companhia de muitas pessoas. Algumas eram conhecidas, outras não. Era uma Sangha, todos estavam trajados com Robes. Em certo momento, me dirigi ao mestre daquele grupo, o qual ocupava uma posição central, referindo-me às coisas que fogem à razão humana, que são inconcebíveis para nós e, em certo momento, falei da necessidade de se nutrir a fé e a coragem. Quando falei a palavra ‘Fé’, foi uma gargalhada em uníssono. Todos riram e aquele líder, também rindo discretamente, me disse entre dentes: ‘Aqui essa palavra não existe’. Era uma Sangha sem fé.

Fiquei calado e, com tristeza, interrompi tanto a fala como o raciocínio. Senti um vazio. Não uma ofensa ou revolta, mas um vazio. Em pensamento, repreendi a mim mesmo: ‘Porque falei tanto’? Mas, fiquei por ali.

A certa altura, tive uma troca de olhares com um daqueles Monges. A simples troca de olhares foi se intensificando, se fixando, evocando a coragem, até que se transformou numa contenda de olhares, sem palavras. Passados alguns segundos, aquele Monge caiu e se prostrou ao chão. O sentimento que eu tinha era de tê-lo derrotado e seu aspecto no chão era de prostração e fraqueza. Isto ocorreu em meio a muitos olhares atônitos. Ajeitei o Robe que vestia sobre os ombros e sai daquele local acompanhado por duas ou três pessoas que permaneceram ao meu lado o tempo todo.

A saída, o caminho de volta, era um beco escuro, cheio de dejetos e transeuntes que vinham no sentido contrário, em direção ao local que eu havia abandonado, e que eram muito mal apessoados, inspiravam medo. Aos poucos aquele caminho foi clareando, tornando-se limpo e amplo. Dobrei uma esquina à direita e, nesta passagem, ainda vi duas crianças treinando artes marciais. Fui embora. Acordei com uma idéia fixa: ‘você tem que cultivar a fé e a paciência’.

Marcos Ubirajara.

Em 20/05/2009 às 02:00 hs.

%d blogueiros gostam disto: